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terça-feira, 26 de abril de 2011

As asas da Musa

Sentia meus ossos esfriarem-se feitomármore diante de seu silêncio. Olívia era uma daquelas criaturas cuja miséria vital permitia que o avesso de si fosse facilmente visto. Seus movimentos naquela sua casa mínima eram torpes, espaçados, fracos e delimitados; acostumara-se a ela, pois muito cedo havia sido lançada ali; se ela imaginava a existência de outro espaço que não aquele, deveria ser apenas um fragmento do já-visto, uma reminiscência de certa natureza que se não estava tomada por incerta, deveria parecer-lhe apenas um vestígio de um sonho antigo. Os seus olhos, pequeninos e rotos raramente se abriam, como se sua existência sonambólica sempre reclamasse o sonho. Criança, lembro-me quando vi abertos pela primeira vez os olhos de Olívia. Notei sua vagueza, ausência de força, energia, brilho.  Diante de tamanha frialdade e inércia devo confessar que senti uma vontade urgente e dorsal de provocar-lhe a morte. Raptá-la ou forçar-lhe uma fuga seria feito bastante tolo, pois todos sabiam que ela não era dotada de tamanha astúcia o que colocaria as evidências do crime sobre mim, a única que lhe dedicava notável apreço. Imaginei então outros modos de livrá-la de sua condição: envenenando-a, estrangulando-a, decepando-a, forjando um ataque ou assassinato... talvez assim com o ataque iminente da morte eu conseguiria fazê-la relembrar que seu corpo era orgânico, vivo e ela reclamaria ao menos uma vez pela vida, uma vez última...
Das quatorze vezes que tentei estrangulá-la, e das três que tentei cortar sua cabeça, acovardei-me. Optei então por uma tarefa mais estúpida: fazer Olívia cantar. Todas as manhãs assobiava para Olívia. Como não resultando em nada, comecei assobiar pelas tardes. E a noite também. Fato que passou a irritar minha mãe, pois já não agüentava ouvir-me assobiando. “Olívia é sabiá velha, menina. Cala a boca e vá dormir!”, dizia. Assobiava mais ainda. E nenhuma resposta de Olívia. Tentei então medicinas um tanto mais elaboradas: resolvi forjar o ambiente que cercava sua gaiola. Coloquei-lhe sementes, folhas, frutos e terra, enchi o terraço de gotículas de água, vespinhas e besouros. Assobiava o dia inteiro - Olívia prosseguia com seu retumbante silêncio. Resolvi provocar-lhe ainda mais: cantei como uma indígena próxima à gaiolinha enferrujada, imitei pássaro, som de vento, de água e uivo guará..repeti esse ritual e minhas ridículas extravagâncias durante largo tempo de minha infância. Frutos, folhas, sementes, terra, água, vento, uivo...
 Olívia permanecia naquele seu perpétuo. Fui aposentando tais rituais e à medida que minha infância ganhava mais vida na memória que na existência propriamente dita, uma catarata também ia passando lenta pelo olho esquerdo da velha passarinha. O tempo marchava e ela seguia ali: firme, poucas asas, movimentos ainda mais lentos, descompassados e frouxos. Ela amansava-se na linda gaiola prateada, nobre moldura de seu espírito.
Vinte anos galopados, voltei à casa de mamãe quando a noticia da morte veio. “Olívia é sabiá velha, menina. Cala a boca e vá dormir!”, era o que dizia antes de morrer. Sair do velório de mamãe e encontrar com Olívia ali no terraço foi um pouco terrificante. Como poderia? Mamãe morrer e Olívia persistir? Cheguei a delirar que estava diante de uma sabiá única. (Seria ela imortal?), sussurrei para mim mesma como se quisesse ludibriar o golpe da morte anterior. Olívia, velha Olívia. Magra, muda, calma, os olhos abertos; em seu corpo quase já não havia mais penas...
 Olívia fora comprada por papai quando ela ainda era ovo. Quando ele morreu, mamãe passou a cuidar da passarinha; de bichinho estimado, Olívia passou ao status de único objeto-vivo que guardava o próprio sopro de vida de papai. Mamãe apavorava-se em imaginar que Olívia poderia fugir... Quando bateram à gaiola as cataratas, o temor de mamãe agravou-se. Temia que se escapasse, terminasse com a cabeça na boca de um gato, afinal, já era cega. Ninguém a não ser ela, tinha autoridade para abrir a gaiola – regra que violei no dia de sua morte. Olívia parecia não dar-se conta de que eu a abria. Estirei minhas mãos e retirei-a da sua morada; não expressou nenhum movimento. Coloquei-a sobre a mesa de mármore e soltei-a no espaço à sua frente para ela experimentá-lo, duvidá-lo, quem sabe alçar o primeiro vôo - mas ela não demonstrou reação alguma. Toquei em suas duas asas, tentei abri-las...e curiosamente estavam completamente enrijecidas. Pássara dura. Só não confirmava a morte por que ainda lhe batia o pequeno coração. Desaprendera o movimento de voar? Ver suas asas assim tão céticas, despertaram-me a vontade de concretizar meu desejo de criança...Não hesitei: Agarrei Olívia fortemente e golpeei severas vezes sua cabeça no mármore da mesa. Pela primeira vez vi Olívia combater pela vida. Ela finalmente piava escandalosamente e bicava minhas mãos, debatia-se, lutava, queria vencer, vencer a morte, enfim! Isso velha Olívia, lute! Golpeava seu crânio mais e mais. Só parei quando vi a cabeça pendida por um fiozinho de carne. Olhei para ela e a vi como o retrato da guerra: a cabeça no desfiladeiro, forte, rebelde, relutante! Repousei na mesa o corpinho da pássara. Era ela agora a própria imagem eterna da humanidade, única, resistente e imperial. Ali, com a cabeça pendida e as descrentes asas quebradas pude contemplá-la como que diante de uma obra de arte. Olívia já não era mais uma velha sabiá morta.... ela assim sobre a mesa era minha criação, minha obra de morte e apresentava-se a mim respeitosamente, tal qual a estátua grega da Vênus: pálida, gélida, sem vida, sem cabeça e sem braços.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Quem nunca deveu o Sodré?

   Que atire a primeira pedra quem nunca recebeu uma ligação do poeta da transmutação cobrando, em plena tarde de sol, a dívida de um livro. Sodré, que dispensava abertamente as teclas do computador e as trocava por pena, escrevia à tinta, no caderno de papel amarelado em seu tão conhecido cantinho sagrado do Instituto de Linguagens. Quando não poetava, tocava em seu surrado violão de cordas frouxas como se ensaiasse uma magnífica orquestra árabe do Saara. Lembro-me que um dia enquanto andávamos de tarde por aquela região da Universidade - e ao seu lado tal palavra ganhava ainda mais força - contemplávamos Pluriversos como quem belisca abelhas. Nessa tarde Sodré disse-me extasiado que certa vez, com um certo amigo em um incerto lugar - mesa de bar?, que ele, ele, ele, mesminho da silva, havia composto uma música, uma grande música para ser tocada em Orquestra Sinfônica. E falou isso com aquele seu brilhinho típico nos olhos apertados, o sorriso contido e engraçado, a cara de desenho animado. E de repente com sua voz de taquara esguia e rachada, começou a cantar pra mim aquela que seria a única frase que envolveria e guiaria todos os instrumentos da magnífica Orquestra: “Há muitos orquidáááários...há muitos orquidáááários...há muitos or-qui-dáááários! Pam, Pam, Pam”. E falou extasiado, a cara de desenho animado e os olhos brilhando: “Imagine os violinos, Luana! Imagine os violinos! Pam, Pam, Pam!”. É claro que ele estava falando muito sério. E é claro que eu morri de rir.
   Mas cá entre nós, fiadores e passeantes do “Carrossel do IL”, como não morrer de rir com Sodré? Ler seus poemas e não soltar um enigmático risinho de Monalisa é feito impossível. E quanto à narrativa de seus contos? Dia desses, de noitinha, naquele seu lugarzinho sagrado, ele me disse: “estou escrevendo um conto sobre um mènage...é um gato que tem ciúmes doentio de sua dona com o namorado e do namorado que também tem ciúmes doentio dela com o gato”.... tirando o trágico fim de que o gato assassinaria o namorado de sua dona a unhadas na jugular, o conto era de uma comicidade equiparável ao estranho som da risada de Sodré.
   Nosso escritor transmutante ria de coisas escatológicas, eróticas, aneurítmicas, sérias e absurdas. Naquele seu cantinho sagrado, estava sempre lendo ou escrevendo em transe, ouvindo seu radinhozinho de pilha sintonizado em uma música leve e agradável. Não raro o poeta, quando cutucado em seu Oásis literário, respondia com um agradável e simples: “HÃN?!” E quando cumprimentado com um comum “Boa noite Sodré!”, ele, como se ressintonizasse vagarosamente com a terra devolvia: “AH, OI, SIM, É, TUDO BOM”. E nós, claro, ríamos de seu despropósito com as saudações rotineiras.          Porque Sodré era um poeta que estava mais acostumado a saudar flores, palavras e nuvens do que gente; reparava na aranha pendurada na teia debaixo da sua bancada, pois ela seguramente dançava ao som das cordas frouxas de seu violão das arábias.
   Nosso livreiro, que não era de Cabul nem do Saara, mas viveu calorosamente sob os 40 graus de nossa Cuiabá, não tinha plano de saúde, casa própria, nem celular - mas fazia do orelhão da Universidade, o seu telefone fixo. E era de lá que ligava para os seus fiadores. Num simples “triiiimmm”, avisava o funcionário, estudante, professor, moradores de rua e os gatos (assassinos ou não) da nossa universidade, que já tinha passado o dia do pagamento agendado do livro adquirido. Era dia de pagar. De pagar o Sodré. Tarde de sol, de sábado, segunda ou domingo... era dia de pagar o Sodrezin...dívida esta que por sinal, não paguei.
Mas confesso que hoje, nessa tarde de sol, mesmo a alguns quilômetros de Cuiabá, espero extasiada pela ligação de Sodré. Não porque acredite na ressurreição do Poeta. Mas porque acredito piamente que Sodré, com sua cadernetinha de palavras e  e números nas mãos, enquanto assobia poemas e conta orquidários, está andando por aí meio desligado, buscando algum orelhão pra fazer de telefone fixo no além...

Luana Costa
Ex-estudante de Letras da UFMT e passeante do Carrossel do IL.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Acordando com os Lobos


      Em seu sorriso repousavam o vociferar de uma matilha de cães. Caninos de lobo, ela possuía dois olhos de topázio que rosnavam vontades. La que Sabé já podia fazer Obra de seus pensamentos, pensava agora em dormir entre selvagens revolvendo-se em caveiras de cristais.  Feiticeira, manipuladora de velas e vulcões ela dominava algumas luzes que emanavam de seus sonhos.  Todas as noites  sob os raios vítreos da lua cantava frente aos ossos dos lobos para ressucitá-los. Quando devolveu a vida ao primeiro lobo e viu seus ossos cobrindo-se vagarosamente de magnífica pelagem castanha e correr pela floresta La que Sabé cintilou, pois era com orelhas agudas e olhos oblíquos que ele adentrava no mundo dela. Ao vê-lo recebia-o inteiramente.  De volta à Terra ele, sob o signo do Cão, se alimentava como o último poderoso espírito de fera e sua fome de carne parecia iluminada pela própria retina de deus. Ela o acompanhava e gostava de vê-lo comer. Satisfazia-se. A boca rasgando a pele da presa imóvel, o sangue entre os caninos. O prazer de observá-lo mastigar fazia com que ela tocasse num certo íntimo de violência de si. Vendo-o atingia o cerne de uma crueldade que a vestia de um prazer antigo - Quando o sangue da presa intumescia os pêlos do lobo, sentia-se abraçada por asas de anjos. Seus órgãos também dilaceravam. Estava plena. Possuída pelo desejo de só-ser amolecia o corpo para compreender melhor as nuances da mordida. O abocanhar do lobo entranhava-se nela duplamente. Na boca de seu pequeno selvagem os restos de tecido muscular das lebres pareciam dançar uma coreografia de espíritos subterrâneos e ela olhava-o  rompendo a carne fresca. No altar em seu mizbeah sagrado, nutria-se ao ver aquele carnavalesco sacrifício. Se ele se transmutasse ali mesmo em uma estátua de pedra ela continuaria a reverenciar a poética das carcaças. O odor de carne crua voava até suas narinas e ela aninhava-se. Assistindo-o devorar satisfeito o ventre da última lebre, La que Sabé regurgitou em êxtase um líquido do mesmo topázio de seus olhos vindo do abismo de suas entranhas. Terminada a caça, o seu animal passou a olhá-la de forma magnética e os dois se reaproximaram. Abrilhantava-lhes as peles, a lua.  Em reverência e gratidão e sob a luz do astro materno, lambeu-lhe o lobo as últimas gotas de sangue que escorriam vivas da boca de sua fêmea.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um sonho de véspera - Conto de Natal

Era noite. Manoela olhou da sacada do quarto com os olhos que lhe eram próprios, a rua. Estavam todos lá: o poste, o hidrante, o cachorro e a lua. Manoela, que via tudo no andar de seu apartamento estava enfiada num vestido preto que mais parecia capa de chuva. Ainda que ele a apertasse demais para um dia de celebração e dificultasse-a para respirar, ela observava a rua atentamente. Porque no fundo ela queria ser pássaro. Ou noite, quem sabe.
Às vezes ela voltava para a sala a chamado de um grito ou riso para escutar uma piada do tio Caio, mas o uivo do cachorro lá fora alimentava mais seus ouvidos que a palhaçada de família. Devia ser porque ela tinha o sonho de ser palhaça também só que de circo: cara-pintada, nariz vermelho, sapatos achatados e boca de sapo. De quando em quando, Manoela ia até a sala e se via de soslaio na bola azul pendurada na árvore, uma imagem rara de si mesma: côncava, pequenininha, colorida.
Mas volta e meia Manoela voltava para a sacada de seu quarto, pois de lá a imagem de si mesma era outra, quase um reflexo perfeito do eu. E enquanto o vestido enforcava o seu tórax, ela via o poste e a lua amarela. Mirando o céu, uma chuva bem ralinha começou a frisar a noite; a chuva caía formosamente sobre a ponta da lua e coroava-a, dando-lhe cabelos d´água transparentes.  Depois caíam vagarosas nos pêlos do cãozinho que uivava, e só depois de tocá-lo iam parar silenciosas no chão. A lua, o cachorro, o poste e a rua pareciam uma coisa só, pertenciam à moldura de sua janela. Tio Caio e toda a família chamou Manoela para ver a chuva que caía da sala, mas ela sabia que da sua janela era diferente...
Foi quando atrás da mureta que separava seu bairro do centro da cidade, surgiu uma estranha imagem: Vestia um macacão enorme e colorido, grandes sapatos, boca vermelha e os olhos pintados como a lua crescente. Enquanto a figura andava, ouvia-se o barulho dos guizos balançando na ponta do chapéu. Manoela também tilintou o guizo dos seus olhos. A madrugada abraçou toda aquela cor. Depois, a lua beijou a moça da janela.
Porque era véspera.

Luana Costa.
Texto publicado originalmente no Jornal "Folha do Estado", 24 e 25 de dezembro de 2010.