sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sexo e virtualidade: um olhar descompromissado sobre as redes


Confesso que a princípio pensei em começar este texto pelo próprio sexo. Mas vejo necessário tomá-lo a partir do vocábulo olhar, já que é ele que fulgura cortando a frase bem no meio do tórax titular. O olho, esse nosso órgão primus. Veia cardíaca que toca a pele do todo. Em actu, ele tem se comportado na contemporaneidade não apenas como via de captura do mundo, mas também como um instrumento de intermédio do desejo e do prazer mais além da sensorialidade corporal: ele pode sim ser via de conexão com os nossos anseios mais íntimos, sensíveis, místicos e oníricos. E isso se torna mais pulsante quando falamos do olhar na pós-modernidade, já que somos constantemente invadidos por deliciosas imagens fantasmáticas de seres avatáricos que surgem oferecendo momentos de prazeres incondicionais que penetram nossos sonhos, ainda que sejam condicionados pelas metáforas da ilusão. No que toca a ilusão, surpreende mesmo o fato de ser possível tocar sem que a pele – nosso órgão secundus – esteja em contato corpóreo fatídico  com o outro. E o que é este outro, quando falamos de virtualidade senão um simulacro de si e de nós? Já que tocamos sem tocar, o que tocamos então? Um fetiche? O invisível? Ou um desejo imaculado de ser o ser sem de fato o ser? Perguntas que logo se calam quando fechamos os olhos. Mas quando, por exemplo, dispomos na rede nossos seres avatáricos de maneira  tal que o que desejamos não se torna passível de ser tocado realmente? 
Se é que se pode mesmo falar em realidade, já que somos nós os interpretantes deste possível – será que além de experimentar as possibilidades múltiplas de nós e do outro, não pretendemos também nos proteger do impossível? Pergunta que logo se cala se lançarmos nossos tentáculos sobre a atmosfera sexual, este nosso clitóris violável eternamente disponível. E o que é o sexo, afinal? Passemos então para o primeiro e o segundo vocábulos deste texto: Sexo e virtualidade. Separam-nos uma letra, que se conjuga como uma ligação intersticial entre o um e o outro. Sexo virtual é coisa que se faz só? Ou é ato que se faz coisa?
Sexo virtual é ou não é? Já que este texto é um pretenso olhar descompromissado sobre as redes sociais da contemporaneidade, arrisco-me a dizer que o sexo virtual É. E Não é.Mas é e não é o quê, especificamente? Sexo virtual é e não é nada. É o vazio, que se configura no espaço tal qual o buraco negro: Existe e não existe. Ser ou não ser, neste sentido, já não é mais o cerne da questão. Ser e não ser, torna-se hoje a grande metáfora lírica e onírica da contemporaneidade. Um tanto paradoxal, sim. O que faz ressoar ainda mais intensa a pergunta: como podemos ser e não ser ao mesmo tempo? Como podemos Amar e não Amar, em um mesmo instante? Consideremos que vivemos em um tempo líquido, tal como sugere-nos Zygmunt Bauman. Consideremos, desse modo o elemento Água. Imaginemo-la entre nossos dedos. O que restaria da água entre nossos dedos senão o próprio escoar, um profundo e denso esvair-se? Seria assim também com o amor virtual? Um constante esvair-se? Um escoamento de palavras e prazeres incondicionais que tão logo saciados descambariam na ilusão? Pergunta essa que calaria, mesmo se não fôssemos mudos.
Mas diante destas perguntas devo dizer que ainda que eu estivesse em um mágico e onírico silêncio, ou contando todos os  centauros que habitam dentro do meu Labirinto interior, escovando os dentes, ou mesmo deitada sobre o conforto de uma delicada rede literária, indígena, imaginária ou virtual, esta é uma pergunta, dentre tantas outras que docemente, devo dizer-lhes que ainda que fosse uma mulher pouco sonhadora, pouco mística, pouco romântica (ou cega, quem sabe)... confesso, não saberia nunca responder.