Sentia meus ossos esfriarem-se feitomármore diante de seu silêncio. Olívia era uma daquelas criaturas cuja miséria vital permitia que o avesso de si fosse facilmente visto. Seus movimentos naquela sua casa mínima eram torpes, espaçados, fracos e delimitados; acostumara-se a ela, pois muito cedo havia sido lançada ali; se ela imaginava a existência de outro espaço que não aquele, deveria ser apenas um fragmento do já-visto, uma reminiscência de certa natureza que se não estava tomada por incerta, deveria parecer-lhe apenas um vestígio de um sonho antigo. Os seus olhos, pequeninos e rotos raramente se abriam, como se sua existência sonambólica sempre reclamasse o sonho. Criança, lembro-me quando vi abertos pela primeira vez os olhos de Olívia. Notei sua vagueza, ausência de força, energia, brilho. Diante de tamanha frialdade e inércia devo confessar que senti uma vontade urgente e dorsal de provocar-lhe a morte. Raptá-la ou forçar-lhe uma fuga seria feito bastante tolo, pois todos sabiam que ela não era dotada de tamanha astúcia o que colocaria as evidências do crime sobre mim, a única que lhe dedicava notável apreço. Imaginei então outros modos de livrá-la de sua condição: envenenando-a, estrangulando-a, decepando-a, forjando um ataque ou assassinato... talvez assim com o ataque iminente da morte eu conseguiria fazê-la relembrar que seu corpo era orgânico, vivo e ela reclamaria ao menos uma vez pela vida, uma vez última...
Das quatorze vezes que tentei estrangulá-la, e das três que tentei cortar sua cabeça, acovardei-me. Optei então por uma tarefa mais estúpida: fazer Olívia cantar. Todas as manhãs assobiava para Olívia. Como não resultando em nada, comecei assobiar pelas tardes. E a noite também. Fato que passou a irritar minha mãe, pois já não agüentava ouvir-me assobiando. “Olívia é sabiá velha, menina. Cala a boca e vá dormir!”, dizia. Assobiava mais ainda. E nenhuma resposta de Olívia. Tentei então medicinas um tanto mais elaboradas: resolvi forjar o ambiente que cercava sua gaiola. Coloquei-lhe sementes, folhas, frutos e terra, enchi o terraço de gotículas de água, vespinhas e besouros. Assobiava o dia inteiro - Olívia prosseguia com seu retumbante silêncio. Resolvi provocar-lhe ainda mais: cantei como uma indígena próxima à gaiolinha enferrujada, imitei pássaro, som de vento, de água e uivo guará..repeti esse ritual e minhas ridículas extravagâncias durante largo tempo de minha infância. Frutos, folhas, sementes, terra, água, vento, uivo...
Olívia permanecia naquele seu perpétuo. Fui aposentando tais rituais e à medida que minha infância ganhava mais vida na memória que na existência propriamente dita, uma catarata também ia passando lenta pelo olho esquerdo da velha passarinha. O tempo marchava e ela seguia ali: firme, poucas asas, movimentos ainda mais lentos, descompassados e frouxos. Ela amansava-se na linda gaiola prateada, nobre moldura de seu espírito.
Vinte anos galopados, voltei à casa de mamãe quando a noticia da morte veio. “Olívia é sabiá velha, menina. Cala a boca e vá dormir!”, era o que dizia antes de morrer. Sair do velório de mamãe e encontrar com Olívia ali no terraço foi um pouco terrificante. Como poderia? Mamãe morrer e Olívia persistir? Cheguei a delirar que estava diante de uma sabiá única. (Seria ela imortal?), sussurrei para mim mesma como se quisesse ludibriar o golpe da morte anterior. Olívia, velha Olívia. Magra, muda, calma, os olhos abertos; em seu corpo quase já não havia mais penas...
Olívia fora comprada por papai quando ela ainda era ovo. Quando ele morreu, mamãe passou a cuidar da passarinha; de bichinho estimado, Olívia passou ao status de único objeto-vivo que guardava o próprio sopro de vida de papai. Mamãe apavorava-se em imaginar que Olívia poderia fugir... Quando bateram à gaiola as cataratas, o temor de mamãe agravou-se. Temia que se escapasse, terminasse com a cabeça na boca de um gato, afinal, já era cega. Ninguém a não ser ela, tinha autoridade para abrir a gaiola – regra que violei no dia de sua morte. Olívia parecia não dar-se conta de que eu a abria. Estirei minhas mãos e retirei-a da sua morada; não expressou nenhum movimento. Coloquei-a sobre a mesa de mármore e soltei-a no espaço à sua frente para ela experimentá-lo, duvidá-lo, quem sabe alçar o primeiro vôo - mas ela não demonstrou reação alguma. Toquei em suas duas asas, tentei abri-las...e curiosamente estavam completamente enrijecidas. Pássara dura. Só não confirmava a morte por que ainda lhe batia o pequeno coração. Desaprendera o movimento de voar? Ver suas asas assim tão céticas, despertaram-me a vontade de concretizar meu desejo de criança...Não hesitei: Agarrei Olívia fortemente e golpeei severas vezes sua cabeça no mármore da mesa. Pela primeira vez vi Olívia combater pela vida. Ela finalmente piava escandalosamente e bicava minhas mãos, debatia-se, lutava, queria vencer, vencer a morte, enfim! Isso velha Olívia, lute! Golpeava seu crânio mais e mais. Só parei quando vi a cabeça pendida por um fiozinho de carne. Olhei para ela e a vi como o retrato da guerra: a cabeça no desfiladeiro, forte, rebelde, relutante! Repousei na mesa o corpinho da pássara. Era ela agora a própria imagem eterna da humanidade, única, resistente e imperial. Ali, com a cabeça pendida e as descrentes asas quebradas pude contemplá-la como que diante de uma obra de arte. Olívia já não era mais uma velha sabiá morta.... ela assim sobre a mesa era minha criação, minha obra de morte e apresentava-se a mim respeitosamente, tal qual a estátua grega da Vênus: pálida, gélida, sem vida, sem cabeça e sem braços.