Que atire a primeira pedra quem nunca recebeu uma ligação do poeta da transmutação cobrando, em plena tarde de sol, a dívida de um livro. Sodré, que dispensava abertamente as teclas do computador e as trocava por pena, escrevia à tinta, no caderno de papel amarelado em seu tão conhecido cantinho sagrado do Instituto de Linguagens. Quando não poetava, tocava em seu surrado violão de cordas frouxas como se ensaiasse uma magnífica orquestra árabe do Saara. Lembro-me que um dia enquanto andávamos de tarde por aquela região da Universidade - e ao seu lado tal palavra ganhava ainda mais força - contemplávamos Pluriversos como quem belisca abelhas. Nessa tarde Sodré disse-me extasiado que certa vez, com um certo amigo em um incerto lugar - mesa de bar?, que ele, ele, ele, mesminho da silva, havia composto uma música, uma grande música para ser tocada em Orquestra Sinfônica. E falou isso com aquele seu brilhinho típico nos olhos apertados, o sorriso contido e engraçado, a cara de desenho animado. E de repente com sua voz de taquara esguia e rachada, começou a cantar pra mim aquela que seria a única frase que envolveria e guiaria todos os instrumentos da magnífica Orquestra: “Há muitos orquidáááários...há muitos orquidáááários...há muitos or-qui-dáááários! Pam, Pam, Pam”. E falou extasiado, a cara de desenho animado e os olhos brilhando: “Imagine os violinos, Luana! Imagine os violinos! Pam, Pam, Pam!”. É claro que ele estava falando muito sério. E é claro que eu morri de rir.
Mas cá entre nós, fiadores e passeantes do “Carrossel do IL”, como não morrer de rir com Sodré? Ler seus poemas e não soltar um enigmático risinho de Monalisa é feito impossível. E quanto à narrativa de seus contos? Dia desses, de noitinha, naquele seu lugarzinho sagrado, ele me disse: “estou escrevendo um conto sobre um mènage...é um gato que tem ciúmes doentio de sua dona com o namorado e do namorado que também tem ciúmes doentio dela com o gato”.... tirando o trágico fim de que o gato assassinaria o namorado de sua dona a unhadas na jugular, o conto era de uma comicidade equiparável ao estranho som da risada de Sodré.
Nosso escritor transmutante ria de coisas escatológicas, eróticas, aneurítmicas, sérias e absurdas. Naquele seu cantinho sagrado, estava sempre lendo ou escrevendo em transe, ouvindo seu radinhozinho de pilha sintonizado em uma música leve e agradável. Não raro o poeta, quando cutucadoem seu Oásis literário, respondia com um agradável e simples: “HÃN?!” E quando cumprimentado com um comum “Boa noite Sodré!”, ele, como se ressintonizasse vagarosamente com a terra devolvia: “AH, OI, SIM, É, TUDO BOM”. E nós, claro, ríamos de seu despropósito com as saudações rotineiras. Porque Sodré era um poeta que estava mais acostumado a saudar flores, palavras e nuvens do que gente; reparava na aranha pendurada na teia debaixo da sua bancada, pois ela seguramente dançava ao som das cordas frouxas de seu violão das arábias.
Nosso livreiro, que não era de Cabul nem do Saara, mas viveu calorosamente sob os 40 graus de nossa Cuiabá, não tinha plano de saúde, casa própria, nem celular - mas fazia do orelhão da Universidade, o seu telefone fixo. E era de lá que ligava para os seus fiadores. Num simples “triiiimmm”, avisava o funcionário, estudante, professor, moradores de rua e os gatos (assassinos ou não) da nossa universidade, que já tinha passado o dia do pagamento agendado do livro adquirido. Era dia de pagar. De pagar o Sodré. Tarde de sol, de sábado, segunda ou domingo... era dia de pagar o Sodrezin...dívida esta que por sinal, não paguei.
Mas cá entre nós, fiadores e passeantes do “Carrossel do IL”, como não morrer de rir com Sodré? Ler seus poemas e não soltar um enigmático risinho de Monalisa é feito impossível. E quanto à narrativa de seus contos? Dia desses, de noitinha, naquele seu lugarzinho sagrado, ele me disse: “estou escrevendo um conto sobre um mènage...é um gato que tem ciúmes doentio de sua dona com o namorado e do namorado que também tem ciúmes doentio dela com o gato”.... tirando o trágico fim de que o gato assassinaria o namorado de sua dona a unhadas na jugular, o conto era de uma comicidade equiparável ao estranho som da risada de Sodré.
Nosso escritor transmutante ria de coisas escatológicas, eróticas, aneurítmicas, sérias e absurdas. Naquele seu cantinho sagrado, estava sempre lendo ou escrevendo em transe, ouvindo seu radinhozinho de pilha sintonizado em uma música leve e agradável. Não raro o poeta, quando cutucado
Nosso livreiro, que não era de Cabul nem do Saara, mas viveu calorosamente sob os 40 graus de nossa Cuiabá, não tinha plano de saúde, casa própria, nem celular - mas fazia do orelhão da Universidade, o seu telefone fixo. E era de lá que ligava para os seus fiadores. Num simples “triiiimmm”, avisava o funcionário, estudante, professor, moradores de rua e os gatos (assassinos ou não) da nossa universidade, que já tinha passado o dia do pagamento agendado do livro adquirido. Era dia de pagar. De pagar o Sodré. Tarde de sol, de sábado, segunda ou domingo... era dia de pagar o Sodrezin...dívida esta que por sinal, não paguei.
Mas confesso que hoje, nessa tarde de sol, mesmo a alguns quilômetros de Cuiabá, espero extasiada pela ligação de Sodré. Não porque acredite na ressurreição do Poeta. Mas porque acredito piamente que Sodré, com sua cadernetinha de palavras e números nas mãos, enquanto assobia poemas e conta orquidários, está andando por aí meio desligado, buscando algum orelhão pra fazer de telefone fixo no além...
Luana Costa
Ex-estudante de Letras da UFMT e passeante do Carrossel do IL.
Lu, parabéns pelo magnífico texto que serve aos nossos olhos como dedicatória ao querido Sodré. Quem nunca deveu o Sodré? Quem nunca se aventurou por aquelas bandas e não descobriu um cantinho delicioso da nossa querida UFMT.
ResponderExcluirEu já devi CD, livro, e até mesmo um "boa noite" quando passei correndo porque estava atrasado para a prova...
Querida Lu, aposto que ele se sente muito bem homenageado com o seu texto.
Um grande abraço,
Vinícius.
Vini, querido! Obrigada!
ResponderExcluirAcho que todos devemos alguns "boa noite" pro nosso livreiro-poeta...ninguém contava com a pressa de Sodré em ouvir estrelas...ele era literário mesmo quando carne..Acho que se ele lesse esse texto hoje, ia soltar mesmo umas boas risadas!...
Abraços poéticos.
Eis a eternização do livreiro-poeta e flautista da rampa...
ResponderExcluirUma linda e vivissíma homenagem a ele, O pequeno grande-homem da rampa...
Um texto de emoção, doçura e um breve amargo...até logo.
O livrerio finalmente subiu a rampa. Que a sua flauta lá de cima possa semear a paz e o amor... Enquanto esperamos no pé da rampa.
A você Lu.
Grande Beijo e saudades, muitas saudades.
Deus continue te iluminando.
Leandro
Oi Leandro!Hum...que saudades de vc!Quantas vezes subimos aquela rampa...nós e tantos outros..."essa gente apressada/a se perder em longas caminhadas/tão preocupada em romper o nada", não é?...
ResponderExcluirÉ amigo. Foi-se o poeta, mas ficou a poesia.
Te adoro.
Beijos poéticos. E muita teatria.
Na minha biblioteca 70 por cento dos livros saíram direto da Banca do Sodré. Quantos livros comprados para serem pagos no mês seguinte. Poeta que fazia da palavra dobradura de papel, mas sabia ser contundente quando preciso.
ResponderExcluirAssisiti filmes do Pasolini com o Sodré, lá no SESC Arsenal. Foram dez anos de convivência na UFMT. Lugar que ele amava e que vai ficar com um vazio imenso na alma sem ele.
Parabéns Luana pelo texto alegre que pinta o Sodré cômico, mesmo que involuntário, e o Sodré criativo, dedicado ás letras e aos livros.
Sodré fez parte das nossas vidas mesmo. No meu aniversário de 22 anos, ele foi lá em casa, vestiu um figurino meu de mago, colocou o chapéu e começou a dizer: "Eu sou o mago Merlim!! O mago Merlim, troxe das profundezas muitas mágicas pois sou o maaaago Merlim!" rsrs..Pra mim (acho que pra todos nós), o Sodré não vai deixar de ser aquela figura irreverente e engraçada...
ResponderExcluirAbraços Wuldson.
E como vai indo seu livro?
Ah Wuldson, olha só, vai sair do forno agora em março uma revista nova de arte, moda, literatura aí em Cuiabá, não sei se tá sabendo...se chama TAG, parece que vai ser bacana. Esse texto vai estar lá, a ilustração é uma das fotos do vídeo do Sodré aí em baixo. Fica a indicação. Revista TAG. Abraços.
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