domingo, 16 de janeiro de 2011

Acordando com os Lobos


      Em seu sorriso repousavam o vociferar de uma matilha de cães. Caninos de lobo, ela possuía dois olhos de topázio que rosnavam vontades. La que Sabé já podia fazer Obra de seus pensamentos, pensava agora em dormir entre selvagens revolvendo-se em caveiras de cristais.  Feiticeira, manipuladora de velas e vulcões ela dominava algumas luzes que emanavam de seus sonhos.  Todas as noites  sob os raios vítreos da lua cantava frente aos ossos dos lobos para ressucitá-los. Quando devolveu a vida ao primeiro lobo e viu seus ossos cobrindo-se vagarosamente de magnífica pelagem castanha e correr pela floresta La que Sabé cintilou, pois era com orelhas agudas e olhos oblíquos que ele adentrava no mundo dela. Ao vê-lo recebia-o inteiramente.  De volta à Terra ele, sob o signo do Cão, se alimentava como o último poderoso espírito de fera e sua fome de carne parecia iluminada pela própria retina de deus. Ela o acompanhava e gostava de vê-lo comer. Satisfazia-se. A boca rasgando a pele da presa imóvel, o sangue entre os caninos. O prazer de observá-lo mastigar fazia com que ela tocasse num certo íntimo de violência de si. Vendo-o atingia o cerne de uma crueldade que a vestia de um prazer antigo - Quando o sangue da presa intumescia os pêlos do lobo, sentia-se abraçada por asas de anjos. Seus órgãos também dilaceravam. Estava plena. Possuída pelo desejo de só-ser amolecia o corpo para compreender melhor as nuances da mordida. O abocanhar do lobo entranhava-se nela duplamente. Na boca de seu pequeno selvagem os restos de tecido muscular das lebres pareciam dançar uma coreografia de espíritos subterrâneos e ela olhava-o  rompendo a carne fresca. No altar em seu mizbeah sagrado, nutria-se ao ver aquele carnavalesco sacrifício. Se ele se transmutasse ali mesmo em uma estátua de pedra ela continuaria a reverenciar a poética das carcaças. O odor de carne crua voava até suas narinas e ela aninhava-se. Assistindo-o devorar satisfeito o ventre da última lebre, La que Sabé regurgitou em êxtase um líquido do mesmo topázio de seus olhos vindo do abismo de suas entranhas. Terminada a caça, o seu animal passou a olhá-la de forma magnética e os dois se reaproximaram. Abrilhantava-lhes as peles, a lua.  Em reverência e gratidão e sob a luz do astro materno, lambeu-lhe o lobo as últimas gotas de sangue que escorriam vivas da boca de sua fêmea.

3 comentários:

  1. Olá. Desde que conheci seu blog não paro de ler. Toda semana leio seus textos e eles me encantam, me enchem de poesia! Estarei sempre lendo e indicando. Abraços!

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  2. Obrigada Mari!:)Enquanto houver desencanto, cantamos, recantamos e reencantamos...
    Abraço forte.

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  3. Conto envolvente, visual, mistíco. Transita na linha entre o sensível e o animalesco: uma "poética das carcaças".

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