terça-feira, 11 de junho de 2013

Sob o Signo de Ar

Deusa de Gêmeos. Swarovski para a Vogue alemã, 2012.
Em tempestade
trágica
maquínica
Abissal
Suspiro-te
Como quem vocifera
uma vontade-vórtice
Atingindo a carne

de Leste 
Oeste 
a Sul 
e à Norte
Escrevo-te
como quem lança chamas
À beira do abismo

lirismo
de um desejo insólito
de tocar-te as algemas
Prisioneira

de uma tempestade abissal
Que triunfa
sobre o Mar
Doze mil caravelas...
Acendam as velas!
Gritam em fúria
dois corpos entre feras
dois fogos entre Trópicos
Gênesis
de um desejo insólito...
Suspiram
dois corpos gêmeos
Acendam as velas!
Gritam em fúria
dois tigres em terra
sob o signo de Ar 
e a ternura de Vênus

Luana Costa.
06/2012, Rio de Janeiro.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Redenção do Capricórnio

Deusa de Capricórnio. Swarovski
para a Vogue alemã, 2012.

Meu corpo é berço
Que se sonha e que se chora
Que se reza e que se implora
Por redenção...
Capricórnio meu!
Vestido de fantasia, cocar e corifeus
Bebe desse cálice que também é teu
o pecado da infâmia
Bebe e santifica
o teu corpo inglório
Minha lírica é água benta                                                           
Que não se funde nem se funda
na cólera ou nos óleos da traição
Então,
Deita no meu colo qual criança
Os meus braços
serão tua casa de campana
te embalando em melodias e cirandas
Vem, deita no meu seio, esquece  do passado
Sei que é caro por demais esse teu fardo
que teu corpo de mortal já não agüenta
Ajoelha frente a mim, se confesse e se renda
Só minha cruz é remendo que se cura
a tua carne corte em fogo corrompida
Vem, se conjura, se ajoelha e se atira
Se desnuda que é benta a minha lírica
Só lambendo é que se curam as feridas...

Luana Costa. Rio de Janeiro, 2012.
Escrito com caneta bico de pena e nanquim azul ultra-mar.

De Libra ao Egito


Deusa de Libra. Swarovsky para a Vogue alemã, 2012.
Do matrimônio ao meretrício
Do início ao precipício
Da verdade ao artifício
- Faz-me tua -
Do Arábico deserto
 Faz-me Duna
Faz-me louva-me e me leva
Leve sobre o dromedário
O meu corpo carne em pedras
pena e ouro
Adornado com a mitra
e turquesas
Com o estatuário
de Ísis sobre os braços
E com o sol da realeza coroada
Do altar ao sacrifício
Da entranha ao interstício
Do desejo a todo vício
Faz-me Runa
A Ruína que se sagra sobre a mesa
Terra Negra flor do Líbio a Vermelha
No Arábico deserto um morticínio
Amarrada ao dromedário toda nua
Príncipe Egípcio
Faz-me tua.

Luana Costa. Cuiabá, 2012.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sexo e virtualidade: um olhar descompromissado sobre as redes


Confesso que a princípio pensei em começar este texto pelo próprio sexo. Mas vejo necessário tomá-lo a partir do vocábulo olhar, já que é ele que fulgura cortando a frase bem no meio do tórax titular. O olho, esse nosso órgão primus. Veia cardíaca que toca a pele do todo. Em actu, ele tem se comportado na contemporaneidade não apenas como via de captura do mundo, mas também como um instrumento de intermédio do desejo e do prazer mais além da sensorialidade corporal: ele pode sim ser via de conexão com os nossos anseios mais íntimos, sensíveis, místicos e oníricos. E isso se torna mais pulsante quando falamos do olhar na pós-modernidade, já que somos constantemente invadidos por deliciosas imagens fantasmáticas de seres avatáricos que surgem oferecendo momentos de prazeres incondicionais que penetram nossos sonhos, ainda que sejam condicionados pelas metáforas da ilusão. No que toca a ilusão, surpreende mesmo o fato de ser possível tocar sem que a pele – nosso órgão secundus – esteja em contato corpóreo fatídico  com o outro. E o que é este outro, quando falamos de virtualidade senão um simulacro de si e de nós? Já que tocamos sem tocar, o que tocamos então? Um fetiche? O invisível? Ou um desejo imaculado de ser o ser sem de fato o ser? Perguntas que logo se calam quando fechamos os olhos. Mas quando, por exemplo, dispomos na rede nossos seres avatáricos de maneira  tal que o que desejamos não se torna passível de ser tocado realmente? 
Se é que se pode mesmo falar em realidade, já que somos nós os interpretantes deste possível – será que além de experimentar as possibilidades múltiplas de nós e do outro, não pretendemos também nos proteger do impossível? Pergunta que logo se cala se lançarmos nossos tentáculos sobre a atmosfera sexual, este nosso clitóris violável eternamente disponível. E o que é o sexo, afinal? Passemos então para o primeiro e o segundo vocábulos deste texto: Sexo e virtualidade. Separam-nos uma letra, que se conjuga como uma ligação intersticial entre o um e o outro. Sexo virtual é coisa que se faz só? Ou é ato que se faz coisa?
Sexo virtual é ou não é? Já que este texto é um pretenso olhar descompromissado sobre as redes sociais da contemporaneidade, arrisco-me a dizer que o sexo virtual É. E Não é.Mas é e não é o quê, especificamente? Sexo virtual é e não é nada. É o vazio, que se configura no espaço tal qual o buraco negro: Existe e não existe. Ser ou não ser, neste sentido, já não é mais o cerne da questão. Ser e não ser, torna-se hoje a grande metáfora lírica e onírica da contemporaneidade. Um tanto paradoxal, sim. O que faz ressoar ainda mais intensa a pergunta: como podemos ser e não ser ao mesmo tempo? Como podemos Amar e não Amar, em um mesmo instante? Consideremos que vivemos em um tempo líquido, tal como sugere-nos Zygmunt Bauman. Consideremos, desse modo o elemento Água. Imaginemo-la entre nossos dedos. O que restaria da água entre nossos dedos senão o próprio escoar, um profundo e denso esvair-se? Seria assim também com o amor virtual? Um constante esvair-se? Um escoamento de palavras e prazeres incondicionais que tão logo saciados descambariam na ilusão? Pergunta essa que calaria, mesmo se não fôssemos mudos.
Mas diante destas perguntas devo dizer que ainda que eu estivesse em um mágico e onírico silêncio, ou contando todos os  centauros que habitam dentro do meu Labirinto interior, escovando os dentes, ou mesmo deitada sobre o conforto de uma delicada rede literária, indígena, imaginária ou virtual, esta é uma pergunta, dentre tantas outras que docemente, devo dizer-lhes que ainda que fosse uma mulher pouco sonhadora, pouco mística, pouco romântica (ou cega, quem sabe)... confesso, não saberia nunca responder.

domingo, 19 de junho de 2011

Poesia: A Utopia que resiste

    
Essa semana fiquei muito contente ao receber aqui em minha casa os exemplares da antologia do II Concurso de Poesia Amigos do Livro/ Flipoços 2011 (Festival Literário de Poços de Caldas), lançada na V Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas. Existente desde 2006, a Feira vem se destacando ano após ano como um importante evento literário do Estado de Minas Gerais, bem como a cidade de Poços de Caldas, que também se mostra um novo pólo cultural  fora do eixo Rio-São Paulo. O Concurso, em parceria desde 2010 com a Editora Scortecci e o Portal Amigos do Livro, teve como Comissão julgadora João Scortecci, Maria Esther Mendes Perfetti e Mara Guimarães, que selecionaram 50 autores brasileiros para comporem a antologia. Projetos como esses além de estímulo para a Literatura contemporânea brasileira, também desmistificam algumas opiniões sobre a Poesia: Uma, a de que poesia pouco se escreve. Outra, a de que poesia pouco se lê. Dois mil escritores participantes e um Festival Literário de sucesso serve mesmo para confirmar que a Poesia é a Utopia que resiste. Destaco aqui a poesia "Cortejo Fúnebre", de Max Lima da Silva, que deixo como deguste dessa antologia:

CORTEJO FÚNEBRE

Morreu o poeta! Levem-no ao túmulo!
Não vive mais a figura maior dos madrigais
Entreguem os póstumos remorsos ao grande êmulo
Cortejam-se os mortos em seus ébrios funerais.

Derramem seus prantos, singulares amantes
Outrora celebrada em grandes odes triunfais
Chorem lágrimas cristalinas e cintilantes
Cortejam-se os mortos em seus ébrios funerais.

Derrama natureza sobre a lágea fria
Teu bálsamo e teus aromas monumentais
Brotai em cemitério vigorosa rosa frígia
Cortejam-se os mortos em seus ébrios funerais.

Orem, irmãos do poeta, em sublimes abadias
Pela essência lacerada dos poetas espectrais
Roguem a Cristo a salvação das almas ímpias
Cortejam-se os mortos em seus ébrios funerais.

Entoem cânticos ideais, anjos castíssimos
Elevem a alma do trovador a alturas celestiais
Pois nada o poeta em negros abismos
Cortejam-se os mortos em seus ébrios funerais.

Leia minha mãe esta cruel carta de suicida
Escrita por um Werther ante luzes orientais
Perdoa meu blasfemo ato perante a vida
Cortejam-se os mortos em seus ébrios funerais.


terça-feira, 26 de abril de 2011

As asas da Musa

Sentia meus ossos esfriarem-se feitomármore diante de seu silêncio. Olívia era uma daquelas criaturas cuja miséria vital permitia que o avesso de si fosse facilmente visto. Seus movimentos naquela sua casa mínima eram torpes, espaçados, fracos e delimitados; acostumara-se a ela, pois muito cedo havia sido lançada ali; se ela imaginava a existência de outro espaço que não aquele, deveria ser apenas um fragmento do já-visto, uma reminiscência de certa natureza que se não estava tomada por incerta, deveria parecer-lhe apenas um vestígio de um sonho antigo. Os seus olhos, pequeninos e rotos raramente se abriam, como se sua existência sonambólica sempre reclamasse o sonho. Criança, lembro-me quando vi abertos pela primeira vez os olhos de Olívia. Notei sua vagueza, ausência de força, energia, brilho.  Diante de tamanha frialdade e inércia devo confessar que senti uma vontade urgente e dorsal de provocar-lhe a morte. Raptá-la ou forçar-lhe uma fuga seria feito bastante tolo, pois todos sabiam que ela não era dotada de tamanha astúcia o que colocaria as evidências do crime sobre mim, a única que lhe dedicava notável apreço. Imaginei então outros modos de livrá-la de sua condição: envenenando-a, estrangulando-a, decepando-a, forjando um ataque ou assassinato... talvez assim com o ataque iminente da morte eu conseguiria fazê-la relembrar que seu corpo era orgânico, vivo e ela reclamaria ao menos uma vez pela vida, uma vez última...
Das quatorze vezes que tentei estrangulá-la, e das três que tentei cortar sua cabeça, acovardei-me. Optei então por uma tarefa mais estúpida: fazer Olívia cantar. Todas as manhãs assobiava para Olívia. Como não resultando em nada, comecei assobiar pelas tardes. E a noite também. Fato que passou a irritar minha mãe, pois já não agüentava ouvir-me assobiando. “Olívia é sabiá velha, menina. Cala a boca e vá dormir!”, dizia. Assobiava mais ainda. E nenhuma resposta de Olívia. Tentei então medicinas um tanto mais elaboradas: resolvi forjar o ambiente que cercava sua gaiola. Coloquei-lhe sementes, folhas, frutos e terra, enchi o terraço de gotículas de água, vespinhas e besouros. Assobiava o dia inteiro - Olívia prosseguia com seu retumbante silêncio. Resolvi provocar-lhe ainda mais: cantei como uma indígena próxima à gaiolinha enferrujada, imitei pássaro, som de vento, de água e uivo guará..repeti esse ritual e minhas ridículas extravagâncias durante largo tempo de minha infância. Frutos, folhas, sementes, terra, água, vento, uivo...
 Olívia permanecia naquele seu perpétuo. Fui aposentando tais rituais e à medida que minha infância ganhava mais vida na memória que na existência propriamente dita, uma catarata também ia passando lenta pelo olho esquerdo da velha passarinha. O tempo marchava e ela seguia ali: firme, poucas asas, movimentos ainda mais lentos, descompassados e frouxos. Ela amansava-se na linda gaiola prateada, nobre moldura de seu espírito.
Vinte anos galopados, voltei à casa de mamãe quando a noticia da morte veio. “Olívia é sabiá velha, menina. Cala a boca e vá dormir!”, era o que dizia antes de morrer. Sair do velório de mamãe e encontrar com Olívia ali no terraço foi um pouco terrificante. Como poderia? Mamãe morrer e Olívia persistir? Cheguei a delirar que estava diante de uma sabiá única. (Seria ela imortal?), sussurrei para mim mesma como se quisesse ludibriar o golpe da morte anterior. Olívia, velha Olívia. Magra, muda, calma, os olhos abertos; em seu corpo quase já não havia mais penas...
 Olívia fora comprada por papai quando ela ainda era ovo. Quando ele morreu, mamãe passou a cuidar da passarinha; de bichinho estimado, Olívia passou ao status de único objeto-vivo que guardava o próprio sopro de vida de papai. Mamãe apavorava-se em imaginar que Olívia poderia fugir... Quando bateram à gaiola as cataratas, o temor de mamãe agravou-se. Temia que se escapasse, terminasse com a cabeça na boca de um gato, afinal, já era cega. Ninguém a não ser ela, tinha autoridade para abrir a gaiola – regra que violei no dia de sua morte. Olívia parecia não dar-se conta de que eu a abria. Estirei minhas mãos e retirei-a da sua morada; não expressou nenhum movimento. Coloquei-a sobre a mesa de mármore e soltei-a no espaço à sua frente para ela experimentá-lo, duvidá-lo, quem sabe alçar o primeiro vôo - mas ela não demonstrou reação alguma. Toquei em suas duas asas, tentei abri-las...e curiosamente estavam completamente enrijecidas. Pássara dura. Só não confirmava a morte por que ainda lhe batia o pequeno coração. Desaprendera o movimento de voar? Ver suas asas assim tão céticas, despertaram-me a vontade de concretizar meu desejo de criança...Não hesitei: Agarrei Olívia fortemente e golpeei severas vezes sua cabeça no mármore da mesa. Pela primeira vez vi Olívia combater pela vida. Ela finalmente piava escandalosamente e bicava minhas mãos, debatia-se, lutava, queria vencer, vencer a morte, enfim! Isso velha Olívia, lute! Golpeava seu crânio mais e mais. Só parei quando vi a cabeça pendida por um fiozinho de carne. Olhei para ela e a vi como o retrato da guerra: a cabeça no desfiladeiro, forte, rebelde, relutante! Repousei na mesa o corpinho da pássara. Era ela agora a própria imagem eterna da humanidade, única, resistente e imperial. Ali, com a cabeça pendida e as descrentes asas quebradas pude contemplá-la como que diante de uma obra de arte. Olívia já não era mais uma velha sabiá morta.... ela assim sobre a mesa era minha criação, minha obra de morte e apresentava-se a mim respeitosamente, tal qual a estátua grega da Vênus: pálida, gélida, sem vida, sem cabeça e sem braços.

domingo, 27 de março de 2011

Artista atravessa corredor de vidro


A artista plástica pernambucana Juliana Notari, em performance realizada no “Festival Performance Arte Brasil” que finalizou nesse domingo, 27 no Museu de Arte Moderna, revela (e desvela) os caminhos de sua arte de forma senão curiosa, no mínimo inquietante. A travessia que fez a artista em sua performance, descalça por um corredor cheio de cacos de vidro nos levam a perguntar inevitavelmente o que moveu a artista a empreender o feito. Este, antes mesmo de sua realização, faz ecoar a princípio no leitor/espectador imagens de mutilação, dor, ou mesmo de sacrifício da carne a serem expurgadas e apresentadas pela artista. Imagens essas um tanto impactantes mas que vão poeticamente desabrochando nas lembranças de um medo, susto ou desejos muito próprios das de nossa infância, pois afinal: quem nunca teve desejo de tocar o fogo, de respirar debaixo d` água, de saltar da árvore e voar, de atravessar paredes, e por que não, atravessar um caminho de estilhaços de vidro?  Se visitarmos nossas recordações podemos facilmente lembrar que diante destes impossíveis - ainda que tivéssemos em nosso coração de criança a vontade de realizar tais feitos - mesmo à luz de nossas ousadias, sentíamos próximas as trevas do perigo; e era assim então que racionalmente afastávamos um pouco mais a mão do brilho do fogo; saíamos ofegantes do escuro do rio; segurávamos no galho forte da árvore; e afastávamos com pés vagarosos, o vidro do chão...
 Retomando à artista, percebemos que ela faz em sua performance esse mesmo movimento descrito e inscrito em nossa salutar memória de criança. Operando de forma contrária às primeiras imagens suscitadas (mutilação, sacrifício, sangue e dores), Juliana durante sua travessia não quer se ferir: quer mesmo diminuir as possibilidades do perigo imanente e faz isso afastando, com pés lânguidos e vagarosos, os cacos de vidro do chão. Ela, na direção inversa do óbvio, realiza sua performance de forma lúdica; ludicidade relevante se levarmos em conta a situação das artes hoje que como disse o pintor Francis Bacon foram transformadas “totalmente num jogo que o homem usa para se distrair” - além de devoradas pelo mass media - o que coloca os artistas em situações de constante perigo. Nesse sentido é preciso que em cada travessia pelos caminhos da arte o artista-jogador tenha ousadia, atenção, intenção e perspicácia para que neste jogo antropófago de vai-e-vem e devorações ele atravesse precipícios, pedras e estilhaços de vidro, mas cuidando para não cair, ferir-se ou mutilar-se... Juliana Notari, em sua performance mostra saber que está em jogo com sua arte. E ela aprofunda-se nele não só despertando sensações, mas colocando seu próprio corpo em xeque.




sexta-feira, 11 de março de 2011

Tsunami no Japão: A vingança de Susanowo


Hoje tive o prazer de conhecer aqui no Rio de Janeiro Akira Ogawa, poeta e jornalista paulista. Ainda que não tenha vivido no Japão, Ogawa cresceu ouvindo lendas e mitos de seu país que eram contados por seus avós paternos. Ambos em alta velocidade, e de passagem pela cidade-maravilha, trocamos e-mails e conversamos sobre poesia e a tragédia do Japão em bate-papo virtual. Sugeri a Ogawa que publicássemos trechos da nossa conversa no blog. Ogawa consentiu. Revisamos a conversa e publicamos aqui no blog incinerário nosso bate-papo-trágico-japonô-poético.

OGAWA: A catástrofe é uma forma inconteste da vida de relembrar o homem da sua animalidade. Não acho que apenas os cidadãos japoneses estão sendo engolidos. É a humanidade. Estamos sendo engolidos pela boca da morte. Os japoneses hoje, os brasileiros amanhã, os indianos, os norte-americanos depois... Todos pouco a pouco vão ser engolidos. E não acho que os Tsunamis são apenas abalos de placas de rocha que se entrechocam no Oceano como diz a mídia. Não mesmo...

LC: Me espanta a ciência, a mídia explicarem as tragédias desse jeitinho tacanho. Ninguém visita a fundo a causa delas. Eles explicam tudo. São as “placas de rocha” que quando se movem produzem “grande quantia de energia” dando então “origem ao tsunami”... explicação frívola, metálica. Mas o que você acha realmente desses tsunamis?

OGAWA: Acho que são os deuses tremendo dentro do Oceano. Pra mim é o deus Susanowo, rei dos oceanos que veio reivindicar a terra para si outra vez. Amaterasu e Susanowo voltaram a brigar...Briga mitológica, guerra antiga, mas que acredito que voltaram a travar. Talvez porque Amaterasu não esteja conseguindo reinar bem a terra. O homem industrial e agora o pós-industrial já tomou conta de tudo. A situação se agrava porque o japonês esqueceu de seus ancestrais...

LC:  Ogawa, sua querida amiga virtual tem sido ocidentalizada demais. Não conheço essa história aí não...”Porque você não verá....meu lado ocidental!” Já te falei do meu novo livro?: “Eu, Estúpida”.

OGAWA: Fica tranqüila. Sou ociriental.

LC: Ociriental?? Gostei.

OGAWA: É. Espada-chin híbrido. Espada-chin brasileiro sem espada e de canivete e celular positrônico!....Tzin! Então...A grosso modus...A briga deles se parece como o Apocalipse bíblico, mas sem apocalipse...briguinha à toa, coisa de deuses. Claro que o que é “à toa” para os deuses não é o mesmo que para nós mortais.

LC: Sei. Algo do tipo, Tsunami: Pra nós grande catástrofe, pros deuses, limpezinha no quintal. Apocalipse mas sem apocalipse...Como assim?

OGAWA: Limpezinha no quintal? Um pouco hilário, não? rs. Mas enfim. Deixa eu tentar explicar. É que Amaterasu é deus dos Céus e da Terra, assim como o Deus cristão. E Susanowo é deus dos Oceanos, Deus das profundezas, da escuridão. Uma região abaixo da terra, analogicamente o inferno cristão.

LC: (Assim na terra como nos céus)

OGAWA: Amém.

LC:  Hum...Tô entendendo...(estúpida que se ilumina)...e aí?...

OGAWA: Aí que Susanowo quer roubar o céu e a terra, domínios de Amaterasu. Como ele domina os oceanos, ele resolve enfrentar Amaterasu com o poder das águas. Devasta a terra com a força do oceano, que emerge com violência. O oceano começa a engolir toda a terra. Arrozais são completamente destruídos, afundam no rio milhares de animais, casas, árvores enormes...a sujeira que ele vai fazendo já que devora e destrói tudo, também suja o palácio da deusa solar. - Puro caos - .

LC: Puro Japão. Antes cavalos, hoje carros...

OGAWA: Isso aí. Então a deusa do sol, ultrajada e ferrada cai fora, se esconde numa gruta pra chorar sozinha toda essa devastação. E aí a catástrofe é maior ainda. Além de perder tudo para o Tsunami de Susanowo, o Sol desaparece.

LC: Sei...

OGAWA: E depois de muito procurar, encontram a deusa e conseguem tirar ela do esconderijo e o Sol volta a raiar. Susanowo então é capturado e punido para que não haja mais desequilíbrio entre os três reinos: o céu a terra e o mar... É mais ou menos isso aí.

LC: Hum...mas então você acha que Susanowo voltou...

OGAWA: Voltou para aniquilar. Talvez Amaterasu, talvez os japoneses, talvez todos  nós. Nenhuma força natural, cósmica, divina, mesmo inférnica, suporta tanto ultraje por tanto tempo. Vomitamos durante muitas gerações lixo atômico na garganta de Susanowo. Acho que agora ele quer regurgitar o mijo, as fezes, os detritos, a sujeira industrial que fizeram seus cavalos marinhos desintegrarem.

LC: Talvez seja agora Susanowo que queira estabelecer o equilíbrio entre os três mundos... Chegou a nossa vez de sermos punidos...Três mundos. Lei número 3. Ação-Reação do Deus. Nada mais natural.

OGAWA: Como disse. Primeiros os japoneses. Depois os brasileiros. Quem sabe os tailandeses, ou os antárticos logo depois. Mas uma coisa é certa. Se Susanowo tiver mesmo voltado, tenha certeza de que ninguém vai resistir à sua fúria. Lixo radioativo vai contaminar muito mais lugares. E muitas bolas de fogo ainda vão explodir no céu. Tóquio não vai resitir. Nem Obama. Nem Kadhafi. Nem eu. Nem você. Bye, planeta.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Quem nunca deveu o Sodré?

   Que atire a primeira pedra quem nunca recebeu uma ligação do poeta da transmutação cobrando, em plena tarde de sol, a dívida de um livro. Sodré, que dispensava abertamente as teclas do computador e as trocava por pena, escrevia à tinta, no caderno de papel amarelado em seu tão conhecido cantinho sagrado do Instituto de Linguagens. Quando não poetava, tocava em seu surrado violão de cordas frouxas como se ensaiasse uma magnífica orquestra árabe do Saara. Lembro-me que um dia enquanto andávamos de tarde por aquela região da Universidade - e ao seu lado tal palavra ganhava ainda mais força - contemplávamos Pluriversos como quem belisca abelhas. Nessa tarde Sodré disse-me extasiado que certa vez, com um certo amigo em um incerto lugar - mesa de bar?, que ele, ele, ele, mesminho da silva, havia composto uma música, uma grande música para ser tocada em Orquestra Sinfônica. E falou isso com aquele seu brilhinho típico nos olhos apertados, o sorriso contido e engraçado, a cara de desenho animado. E de repente com sua voz de taquara esguia e rachada, começou a cantar pra mim aquela que seria a única frase que envolveria e guiaria todos os instrumentos da magnífica Orquestra: “Há muitos orquidáááários...há muitos orquidáááários...há muitos or-qui-dáááários! Pam, Pam, Pam”. E falou extasiado, a cara de desenho animado e os olhos brilhando: “Imagine os violinos, Luana! Imagine os violinos! Pam, Pam, Pam!”. É claro que ele estava falando muito sério. E é claro que eu morri de rir.
   Mas cá entre nós, fiadores e passeantes do “Carrossel do IL”, como não morrer de rir com Sodré? Ler seus poemas e não soltar um enigmático risinho de Monalisa é feito impossível. E quanto à narrativa de seus contos? Dia desses, de noitinha, naquele seu lugarzinho sagrado, ele me disse: “estou escrevendo um conto sobre um mènage...é um gato que tem ciúmes doentio de sua dona com o namorado e do namorado que também tem ciúmes doentio dela com o gato”.... tirando o trágico fim de que o gato assassinaria o namorado de sua dona a unhadas na jugular, o conto era de uma comicidade equiparável ao estranho som da risada de Sodré.
   Nosso escritor transmutante ria de coisas escatológicas, eróticas, aneurítmicas, sérias e absurdas. Naquele seu cantinho sagrado, estava sempre lendo ou escrevendo em transe, ouvindo seu radinhozinho de pilha sintonizado em uma música leve e agradável. Não raro o poeta, quando cutucado em seu Oásis literário, respondia com um agradável e simples: “HÃN?!” E quando cumprimentado com um comum “Boa noite Sodré!”, ele, como se ressintonizasse vagarosamente com a terra devolvia: “AH, OI, SIM, É, TUDO BOM”. E nós, claro, ríamos de seu despropósito com as saudações rotineiras.          Porque Sodré era um poeta que estava mais acostumado a saudar flores, palavras e nuvens do que gente; reparava na aranha pendurada na teia debaixo da sua bancada, pois ela seguramente dançava ao som das cordas frouxas de seu violão das arábias.
   Nosso livreiro, que não era de Cabul nem do Saara, mas viveu calorosamente sob os 40 graus de nossa Cuiabá, não tinha plano de saúde, casa própria, nem celular - mas fazia do orelhão da Universidade, o seu telefone fixo. E era de lá que ligava para os seus fiadores. Num simples “triiiimmm”, avisava o funcionário, estudante, professor, moradores de rua e os gatos (assassinos ou não) da nossa universidade, que já tinha passado o dia do pagamento agendado do livro adquirido. Era dia de pagar. De pagar o Sodré. Tarde de sol, de sábado, segunda ou domingo... era dia de pagar o Sodrezin...dívida esta que por sinal, não paguei.
Mas confesso que hoje, nessa tarde de sol, mesmo a alguns quilômetros de Cuiabá, espero extasiada pela ligação de Sodré. Não porque acredite na ressurreição do Poeta. Mas porque acredito piamente que Sodré, com sua cadernetinha de palavras e  e números nas mãos, enquanto assobia poemas e conta orquidários, está andando por aí meio desligado, buscando algum orelhão pra fazer de telefone fixo no além...

Luana Costa
Ex-estudante de Letras da UFMT e passeante do Carrossel do IL.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

IX Prêmio Literário Livraria Asabeça - São Paulo/SP


Hoje fiquei muito contente ao receber da Livraria Asabeça a notícia de que um de meus trabalhos foi selecionado para compor a antologia de poesias de 2010-2011. É sempre gratificante ter a oportunidade de uma publicação literária principalmente quando se trata de poesia, pois sabemos que são muitas as adversidades existentes no mercado editorial brasileiro no que concerne a divulgação e distribuição de textos do gênero.
Organizado pelo grupo editorial Scortecci de São Paulo Capital, o Prêmio Literário Livraria Asabeça é um concurso nacional de poesias criado para promover a literatura brasileira e divulgar novos escritores do País. Além do Prêmio Asabeça, o grupo Scortecci também organiza outros dois prêmios literários anuais: o Prêmio Canon de Poesia, e Prêmio Amigos do Livro - Flipoços de Poesia (Poços de Caldas, MG).
Seu fundador, João Scortecci que também iniciou a carreira literária sendo publicado em antologias nos anos 70, acredita que são elas o caminho encorajador para o escritor lançar seu livro solo.  O investimento da Editora em antologias e novos talentos literários renderam-lhe, dentre outros, dois importantes prêmios: “Autor Revelação” da Associação Paulista dos Críticos de Arte pela obra Memorial de Inverno, do escritor Paulo Sampaio; e o "Prêmio Jabuti" na categoria Poesia, pela obra de Ilka Laurito.
As antologias com os novos escritores brasileiros e demais publicações do grupo Scortecci marcam presença nas Bienais Internacionais do Livro de São Paulo desde 1994, promovendo ampla circulação e veiculação do material literário. Nesta edição do IX Prêmio Literário Livraria Asabeça foram publicadas poesias de 126 escritores do País. A antologia já está a venda na Livraria Virtual da Asabeçaca e pode ser encontrada através do site: http://www.asabeca.com.br/home.php Excelente qualidade gráfica e bom preço. Impossível não comprar!

domingo, 16 de janeiro de 2011

Acordando com os Lobos


      Em seu sorriso repousavam o vociferar de uma matilha de cães. Caninos de lobo, ela possuía dois olhos de topázio que rosnavam vontades. La que Sabé já podia fazer Obra de seus pensamentos, pensava agora em dormir entre selvagens revolvendo-se em caveiras de cristais.  Feiticeira, manipuladora de velas e vulcões ela dominava algumas luzes que emanavam de seus sonhos.  Todas as noites  sob os raios vítreos da lua cantava frente aos ossos dos lobos para ressucitá-los. Quando devolveu a vida ao primeiro lobo e viu seus ossos cobrindo-se vagarosamente de magnífica pelagem castanha e correr pela floresta La que Sabé cintilou, pois era com orelhas agudas e olhos oblíquos que ele adentrava no mundo dela. Ao vê-lo recebia-o inteiramente.  De volta à Terra ele, sob o signo do Cão, se alimentava como o último poderoso espírito de fera e sua fome de carne parecia iluminada pela própria retina de deus. Ela o acompanhava e gostava de vê-lo comer. Satisfazia-se. A boca rasgando a pele da presa imóvel, o sangue entre os caninos. O prazer de observá-lo mastigar fazia com que ela tocasse num certo íntimo de violência de si. Vendo-o atingia o cerne de uma crueldade que a vestia de um prazer antigo - Quando o sangue da presa intumescia os pêlos do lobo, sentia-se abraçada por asas de anjos. Seus órgãos também dilaceravam. Estava plena. Possuída pelo desejo de só-ser amolecia o corpo para compreender melhor as nuances da mordida. O abocanhar do lobo entranhava-se nela duplamente. Na boca de seu pequeno selvagem os restos de tecido muscular das lebres pareciam dançar uma coreografia de espíritos subterrâneos e ela olhava-o  rompendo a carne fresca. No altar em seu mizbeah sagrado, nutria-se ao ver aquele carnavalesco sacrifício. Se ele se transmutasse ali mesmo em uma estátua de pedra ela continuaria a reverenciar a poética das carcaças. O odor de carne crua voava até suas narinas e ela aninhava-se. Assistindo-o devorar satisfeito o ventre da última lebre, La que Sabé regurgitou em êxtase um líquido do mesmo topázio de seus olhos vindo do abismo de suas entranhas. Terminada a caça, o seu animal passou a olhá-la de forma magnética e os dois se reaproximaram. Abrilhantava-lhes as peles, a lua.  Em reverência e gratidão e sob a luz do astro materno, lambeu-lhe o lobo as últimas gotas de sangue que escorriam vivas da boca de sua fêmea.

domingo, 2 de janeiro de 2011

"C" de casa e cadeira de escola

Escrever para mim sempre foi um exercício de resistência à dor e acima de tudo, paciência. Não pelo motivo que promulgavam alguns de meus antigos professores de que: “escrever é um labor” de uma “dura pedra” que “resfolega o pensamento com a palavra numa contrição”, sempre à procura do “verso perfeito”. Não estou aqui para falar deste sacrifício criativo per si, mas do sacrifício carnálico em si. A começar pelo caderno - caro carnis de minha vida. Os espiralados, verdadeiramente. Durante as exaustivas cópias conteudísticas no quadro negro sofria com as espirais comprimindo a carne do meu antebraço esquerdo de modo que não havia um dia sem que eu saísse da sala de aula sem marcas sulcadas na pele. Concomitantemente às espirais  contraí dores musculares mais obtusas com o tempo e acostumei-me a elas como quem se deita em uma cama de pregos e dorme sonos profundos.  O duplo do meu sofrimento foi sentido com ainda mais força graças a elas, tão belas de tão envernizadas cadeiras! Ah, as cadeiras! Quanta destreza sofri com aquelas direitas! Sem cadeiras especiais para hereges, sentava-me nas destras, naturalmente. As minhas dores musculares sentidas há tanto tempo, já haviam tornado-se normais para mim. E em minha cabeça elas eram comuns à todos os meus. Convivi de maneira muito natural com o meu corpo tendo de curvar-se quebrantavelmente rumo ao lado direito da envernizada cadeira de madeira. Talvez por isso tenha desenvolvido a minha letra C de casa na lombar, diagnosticado por uma médica de hálito agradável. Minha C fora adquirida graças ao esforço contrário dos meus ossos rumo ao lado direito. Mas as minhas dores passariam por uma nova etapa. Envolta em cópias fatigantes do quadro negro, sulcos no antebraço e “Ces” na lombar, entrei na Universidade. Feliz como uma dócil vaca que vai para o abate, ali as minhas náuseas foram mais refinadas: Na sala de aula, compadecidos da minha situação, meus novos mestres decidiram sarar-me dessa tortura: primeiro rasparam-me o crânio; depois molharam-me a cabeça esquálida com esponjas, resfolegaram-me o pensamento e introduziram em minha carne eletrodos em toda a parte esquerda do corpo. Submetida a fortes tensões elétricas de 20000 volts, meus doutos e mestres curaram-me finalmente dessa bruxaria. Depois de retos quatro anos eu, herege, torpe, corcunda e vencida, desisti de experimentar paciências e  resolvi não mais resistir à dor: amputei finalmente a canhota.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um sonho de véspera - Conto de Natal

Era noite. Manoela olhou da sacada do quarto com os olhos que lhe eram próprios, a rua. Estavam todos lá: o poste, o hidrante, o cachorro e a lua. Manoela, que via tudo no andar de seu apartamento estava enfiada num vestido preto que mais parecia capa de chuva. Ainda que ele a apertasse demais para um dia de celebração e dificultasse-a para respirar, ela observava a rua atentamente. Porque no fundo ela queria ser pássaro. Ou noite, quem sabe.
Às vezes ela voltava para a sala a chamado de um grito ou riso para escutar uma piada do tio Caio, mas o uivo do cachorro lá fora alimentava mais seus ouvidos que a palhaçada de família. Devia ser porque ela tinha o sonho de ser palhaça também só que de circo: cara-pintada, nariz vermelho, sapatos achatados e boca de sapo. De quando em quando, Manoela ia até a sala e se via de soslaio na bola azul pendurada na árvore, uma imagem rara de si mesma: côncava, pequenininha, colorida.
Mas volta e meia Manoela voltava para a sacada de seu quarto, pois de lá a imagem de si mesma era outra, quase um reflexo perfeito do eu. E enquanto o vestido enforcava o seu tórax, ela via o poste e a lua amarela. Mirando o céu, uma chuva bem ralinha começou a frisar a noite; a chuva caía formosamente sobre a ponta da lua e coroava-a, dando-lhe cabelos d´água transparentes.  Depois caíam vagarosas nos pêlos do cãozinho que uivava, e só depois de tocá-lo iam parar silenciosas no chão. A lua, o cachorro, o poste e a rua pareciam uma coisa só, pertenciam à moldura de sua janela. Tio Caio e toda a família chamou Manoela para ver a chuva que caía da sala, mas ela sabia que da sua janela era diferente...
Foi quando atrás da mureta que separava seu bairro do centro da cidade, surgiu uma estranha imagem: Vestia um macacão enorme e colorido, grandes sapatos, boca vermelha e os olhos pintados como a lua crescente. Enquanto a figura andava, ouvia-se o barulho dos guizos balançando na ponta do chapéu. Manoela também tilintou o guizo dos seus olhos. A madrugada abraçou toda aquela cor. Depois, a lua beijou a moça da janela.
Porque era véspera.

Luana Costa.
Texto publicado originalmente no Jornal "Folha do Estado", 24 e 25 de dezembro de 2010.