segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

IX Prêmio Literário Livraria Asabeça - São Paulo/SP


Hoje fiquei muito contente ao receber da Livraria Asabeça a notícia de que um de meus trabalhos foi selecionado para compor a antologia de poesias de 2010-2011. É sempre gratificante ter a oportunidade de uma publicação literária principalmente quando se trata de poesia, pois sabemos que são muitas as adversidades existentes no mercado editorial brasileiro no que concerne a divulgação e distribuição de textos do gênero.
Organizado pelo grupo editorial Scortecci de São Paulo Capital, o Prêmio Literário Livraria Asabeça é um concurso nacional de poesias criado para promover a literatura brasileira e divulgar novos escritores do País. Além do Prêmio Asabeça, o grupo Scortecci também organiza outros dois prêmios literários anuais: o Prêmio Canon de Poesia, e Prêmio Amigos do Livro - Flipoços de Poesia (Poços de Caldas, MG).
Seu fundador, João Scortecci que também iniciou a carreira literária sendo publicado em antologias nos anos 70, acredita que são elas o caminho encorajador para o escritor lançar seu livro solo.  O investimento da Editora em antologias e novos talentos literários renderam-lhe, dentre outros, dois importantes prêmios: “Autor Revelação” da Associação Paulista dos Críticos de Arte pela obra Memorial de Inverno, do escritor Paulo Sampaio; e o "Prêmio Jabuti" na categoria Poesia, pela obra de Ilka Laurito.
As antologias com os novos escritores brasileiros e demais publicações do grupo Scortecci marcam presença nas Bienais Internacionais do Livro de São Paulo desde 1994, promovendo ampla circulação e veiculação do material literário. Nesta edição do IX Prêmio Literário Livraria Asabeça foram publicadas poesias de 126 escritores do País. A antologia já está a venda na Livraria Virtual da Asabeçaca e pode ser encontrada através do site: http://www.asabeca.com.br/home.php Excelente qualidade gráfica e bom preço. Impossível não comprar!

domingo, 16 de janeiro de 2011

Acordando com os Lobos


      Em seu sorriso repousavam o vociferar de uma matilha de cães. Caninos de lobo, ela possuía dois olhos de topázio que rosnavam vontades. La que Sabé já podia fazer Obra de seus pensamentos, pensava agora em dormir entre selvagens revolvendo-se em caveiras de cristais.  Feiticeira, manipuladora de velas e vulcões ela dominava algumas luzes que emanavam de seus sonhos.  Todas as noites  sob os raios vítreos da lua cantava frente aos ossos dos lobos para ressucitá-los. Quando devolveu a vida ao primeiro lobo e viu seus ossos cobrindo-se vagarosamente de magnífica pelagem castanha e correr pela floresta La que Sabé cintilou, pois era com orelhas agudas e olhos oblíquos que ele adentrava no mundo dela. Ao vê-lo recebia-o inteiramente.  De volta à Terra ele, sob o signo do Cão, se alimentava como o último poderoso espírito de fera e sua fome de carne parecia iluminada pela própria retina de deus. Ela o acompanhava e gostava de vê-lo comer. Satisfazia-se. A boca rasgando a pele da presa imóvel, o sangue entre os caninos. O prazer de observá-lo mastigar fazia com que ela tocasse num certo íntimo de violência de si. Vendo-o atingia o cerne de uma crueldade que a vestia de um prazer antigo - Quando o sangue da presa intumescia os pêlos do lobo, sentia-se abraçada por asas de anjos. Seus órgãos também dilaceravam. Estava plena. Possuída pelo desejo de só-ser amolecia o corpo para compreender melhor as nuances da mordida. O abocanhar do lobo entranhava-se nela duplamente. Na boca de seu pequeno selvagem os restos de tecido muscular das lebres pareciam dançar uma coreografia de espíritos subterrâneos e ela olhava-o  rompendo a carne fresca. No altar em seu mizbeah sagrado, nutria-se ao ver aquele carnavalesco sacrifício. Se ele se transmutasse ali mesmo em uma estátua de pedra ela continuaria a reverenciar a poética das carcaças. O odor de carne crua voava até suas narinas e ela aninhava-se. Assistindo-o devorar satisfeito o ventre da última lebre, La que Sabé regurgitou em êxtase um líquido do mesmo topázio de seus olhos vindo do abismo de suas entranhas. Terminada a caça, o seu animal passou a olhá-la de forma magnética e os dois se reaproximaram. Abrilhantava-lhes as peles, a lua.  Em reverência e gratidão e sob a luz do astro materno, lambeu-lhe o lobo as últimas gotas de sangue que escorriam vivas da boca de sua fêmea.

domingo, 2 de janeiro de 2011

"C" de casa e cadeira de escola

Escrever para mim sempre foi um exercício de resistência à dor e acima de tudo, paciência. Não pelo motivo que promulgavam alguns de meus antigos professores de que: “escrever é um labor” de uma “dura pedra” que “resfolega o pensamento com a palavra numa contrição”, sempre à procura do “verso perfeito”. Não estou aqui para falar deste sacrifício criativo per si, mas do sacrifício carnálico em si. A começar pelo caderno - caro carnis de minha vida. Os espiralados, verdadeiramente. Durante as exaustivas cópias conteudísticas no quadro negro sofria com as espirais comprimindo a carne do meu antebraço esquerdo de modo que não havia um dia sem que eu saísse da sala de aula sem marcas sulcadas na pele. Concomitantemente às espirais  contraí dores musculares mais obtusas com o tempo e acostumei-me a elas como quem se deita em uma cama de pregos e dorme sonos profundos.  O duplo do meu sofrimento foi sentido com ainda mais força graças a elas, tão belas de tão envernizadas cadeiras! Ah, as cadeiras! Quanta destreza sofri com aquelas direitas! Sem cadeiras especiais para hereges, sentava-me nas destras, naturalmente. As minhas dores musculares sentidas há tanto tempo, já haviam tornado-se normais para mim. E em minha cabeça elas eram comuns à todos os meus. Convivi de maneira muito natural com o meu corpo tendo de curvar-se quebrantavelmente rumo ao lado direito da envernizada cadeira de madeira. Talvez por isso tenha desenvolvido a minha letra C de casa na lombar, diagnosticado por uma médica de hálito agradável. Minha C fora adquirida graças ao esforço contrário dos meus ossos rumo ao lado direito. Mas as minhas dores passariam por uma nova etapa. Envolta em cópias fatigantes do quadro negro, sulcos no antebraço e “Ces” na lombar, entrei na Universidade. Feliz como uma dócil vaca que vai para o abate, ali as minhas náuseas foram mais refinadas: Na sala de aula, compadecidos da minha situação, meus novos mestres decidiram sarar-me dessa tortura: primeiro rasparam-me o crânio; depois molharam-me a cabeça esquálida com esponjas, resfolegaram-me o pensamento e introduziram em minha carne eletrodos em toda a parte esquerda do corpo. Submetida a fortes tensões elétricas de 20000 volts, meus doutos e mestres curaram-me finalmente dessa bruxaria. Depois de retos quatro anos eu, herege, torpe, corcunda e vencida, desisti de experimentar paciências e  resolvi não mais resistir à dor: amputei finalmente a canhota.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um sonho de véspera - Conto de Natal

Era noite. Manoela olhou da sacada do quarto com os olhos que lhe eram próprios, a rua. Estavam todos lá: o poste, o hidrante, o cachorro e a lua. Manoela, que via tudo no andar de seu apartamento estava enfiada num vestido preto que mais parecia capa de chuva. Ainda que ele a apertasse demais para um dia de celebração e dificultasse-a para respirar, ela observava a rua atentamente. Porque no fundo ela queria ser pássaro. Ou noite, quem sabe.
Às vezes ela voltava para a sala a chamado de um grito ou riso para escutar uma piada do tio Caio, mas o uivo do cachorro lá fora alimentava mais seus ouvidos que a palhaçada de família. Devia ser porque ela tinha o sonho de ser palhaça também só que de circo: cara-pintada, nariz vermelho, sapatos achatados e boca de sapo. De quando em quando, Manoela ia até a sala e se via de soslaio na bola azul pendurada na árvore, uma imagem rara de si mesma: côncava, pequenininha, colorida.
Mas volta e meia Manoela voltava para a sacada de seu quarto, pois de lá a imagem de si mesma era outra, quase um reflexo perfeito do eu. E enquanto o vestido enforcava o seu tórax, ela via o poste e a lua amarela. Mirando o céu, uma chuva bem ralinha começou a frisar a noite; a chuva caía formosamente sobre a ponta da lua e coroava-a, dando-lhe cabelos d´água transparentes.  Depois caíam vagarosas nos pêlos do cãozinho que uivava, e só depois de tocá-lo iam parar silenciosas no chão. A lua, o cachorro, o poste e a rua pareciam uma coisa só, pertenciam à moldura de sua janela. Tio Caio e toda a família chamou Manoela para ver a chuva que caía da sala, mas ela sabia que da sua janela era diferente...
Foi quando atrás da mureta que separava seu bairro do centro da cidade, surgiu uma estranha imagem: Vestia um macacão enorme e colorido, grandes sapatos, boca vermelha e os olhos pintados como a lua crescente. Enquanto a figura andava, ouvia-se o barulho dos guizos balançando na ponta do chapéu. Manoela também tilintou o guizo dos seus olhos. A madrugada abraçou toda aquela cor. Depois, a lua beijou a moça da janela.
Porque era véspera.

Luana Costa.
Texto publicado originalmente no Jornal "Folha do Estado", 24 e 25 de dezembro de 2010.