domingo, 19 de junho de 2011

Poesia: A Utopia que resiste

    
Essa semana fiquei muito contente ao receber aqui em minha casa os exemplares da antologia do II Concurso de Poesia Amigos do Livro/ Flipoços 2011 (Festival Literário de Poços de Caldas), lançada na V Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas. Existente desde 2006, a Feira vem se destacando ano após ano como um importante evento literário do Estado de Minas Gerais, bem como a cidade de Poços de Caldas, que também se mostra um novo pólo cultural  fora do eixo Rio-São Paulo. O Concurso, em parceria desde 2010 com a Editora Scortecci e o Portal Amigos do Livro, teve como Comissão julgadora João Scortecci, Maria Esther Mendes Perfetti e Mara Guimarães, que selecionaram 50 autores brasileiros para comporem a antologia. Projetos como esses além de estímulo para a Literatura contemporânea brasileira, também desmistificam algumas opiniões sobre a Poesia: Uma, a de que poesia pouco se escreve. Outra, a de que poesia pouco se lê. Dois mil escritores participantes e um Festival Literário de sucesso serve mesmo para confirmar que a Poesia é a Utopia que resiste. Destaco aqui a poesia "Cortejo Fúnebre", de Max Lima da Silva, que deixo como deguste dessa antologia:

CORTEJO FÚNEBRE

Morreu o poeta! Levem-no ao túmulo!
Não vive mais a figura maior dos madrigais
Entreguem os póstumos remorsos ao grande êmulo
Cortejam-se os mortos em seus ébrios funerais.

Derramem seus prantos, singulares amantes
Outrora celebrada em grandes odes triunfais
Chorem lágrimas cristalinas e cintilantes
Cortejam-se os mortos em seus ébrios funerais.

Derrama natureza sobre a lágea fria
Teu bálsamo e teus aromas monumentais
Brotai em cemitério vigorosa rosa frígia
Cortejam-se os mortos em seus ébrios funerais.

Orem, irmãos do poeta, em sublimes abadias
Pela essência lacerada dos poetas espectrais
Roguem a Cristo a salvação das almas ímpias
Cortejam-se os mortos em seus ébrios funerais.

Entoem cânticos ideais, anjos castíssimos
Elevem a alma do trovador a alturas celestiais
Pois nada o poeta em negros abismos
Cortejam-se os mortos em seus ébrios funerais.

Leia minha mãe esta cruel carta de suicida
Escrita por um Werther ante luzes orientais
Perdoa meu blasfemo ato perante a vida
Cortejam-se os mortos em seus ébrios funerais.


terça-feira, 26 de abril de 2011

As asas da Musa

Sentia meus ossos esfriarem-se feitomármore diante de seu silêncio. Olívia era uma daquelas criaturas cuja miséria vital permitia que o avesso de si fosse facilmente visto. Seus movimentos naquela sua casa mínima eram torpes, espaçados, fracos e delimitados; acostumara-se a ela, pois muito cedo havia sido lançada ali; se ela imaginava a existência de outro espaço que não aquele, deveria ser apenas um fragmento do já-visto, uma reminiscência de certa natureza que se não estava tomada por incerta, deveria parecer-lhe apenas um vestígio de um sonho antigo. Os seus olhos, pequeninos e rotos raramente se abriam, como se sua existência sonambólica sempre reclamasse o sonho. Criança, lembro-me quando vi abertos pela primeira vez os olhos de Olívia. Notei sua vagueza, ausência de força, energia, brilho.  Diante de tamanha frialdade e inércia devo confessar que senti uma vontade urgente e dorsal de provocar-lhe a morte. Raptá-la ou forçar-lhe uma fuga seria feito bastante tolo, pois todos sabiam que ela não era dotada de tamanha astúcia o que colocaria as evidências do crime sobre mim, a única que lhe dedicava notável apreço. Imaginei então outros modos de livrá-la de sua condição: envenenando-a, estrangulando-a, decepando-a, forjando um ataque ou assassinato... talvez assim com o ataque iminente da morte eu conseguiria fazê-la relembrar que seu corpo era orgânico, vivo e ela reclamaria ao menos uma vez pela vida, uma vez última...
Das quatorze vezes que tentei estrangulá-la, e das três que tentei cortar sua cabeça, acovardei-me. Optei então por uma tarefa mais estúpida: fazer Olívia cantar. Todas as manhãs assobiava para Olívia. Como não resultando em nada, comecei assobiar pelas tardes. E a noite também. Fato que passou a irritar minha mãe, pois já não agüentava ouvir-me assobiando. “Olívia é sabiá velha, menina. Cala a boca e vá dormir!”, dizia. Assobiava mais ainda. E nenhuma resposta de Olívia. Tentei então medicinas um tanto mais elaboradas: resolvi forjar o ambiente que cercava sua gaiola. Coloquei-lhe sementes, folhas, frutos e terra, enchi o terraço de gotículas de água, vespinhas e besouros. Assobiava o dia inteiro - Olívia prosseguia com seu retumbante silêncio. Resolvi provocar-lhe ainda mais: cantei como uma indígena próxima à gaiolinha enferrujada, imitei pássaro, som de vento, de água e uivo guará..repeti esse ritual e minhas ridículas extravagâncias durante largo tempo de minha infância. Frutos, folhas, sementes, terra, água, vento, uivo...
 Olívia permanecia naquele seu perpétuo. Fui aposentando tais rituais e à medida que minha infância ganhava mais vida na memória que na existência propriamente dita, uma catarata também ia passando lenta pelo olho esquerdo da velha passarinha. O tempo marchava e ela seguia ali: firme, poucas asas, movimentos ainda mais lentos, descompassados e frouxos. Ela amansava-se na linda gaiola prateada, nobre moldura de seu espírito.
Vinte anos galopados, voltei à casa de mamãe quando a noticia da morte veio. “Olívia é sabiá velha, menina. Cala a boca e vá dormir!”, era o que dizia antes de morrer. Sair do velório de mamãe e encontrar com Olívia ali no terraço foi um pouco terrificante. Como poderia? Mamãe morrer e Olívia persistir? Cheguei a delirar que estava diante de uma sabiá única. (Seria ela imortal?), sussurrei para mim mesma como se quisesse ludibriar o golpe da morte anterior. Olívia, velha Olívia. Magra, muda, calma, os olhos abertos; em seu corpo quase já não havia mais penas...
 Olívia fora comprada por papai quando ela ainda era ovo. Quando ele morreu, mamãe passou a cuidar da passarinha; de bichinho estimado, Olívia passou ao status de único objeto-vivo que guardava o próprio sopro de vida de papai. Mamãe apavorava-se em imaginar que Olívia poderia fugir... Quando bateram à gaiola as cataratas, o temor de mamãe agravou-se. Temia que se escapasse, terminasse com a cabeça na boca de um gato, afinal, já era cega. Ninguém a não ser ela, tinha autoridade para abrir a gaiola – regra que violei no dia de sua morte. Olívia parecia não dar-se conta de que eu a abria. Estirei minhas mãos e retirei-a da sua morada; não expressou nenhum movimento. Coloquei-a sobre a mesa de mármore e soltei-a no espaço à sua frente para ela experimentá-lo, duvidá-lo, quem sabe alçar o primeiro vôo - mas ela não demonstrou reação alguma. Toquei em suas duas asas, tentei abri-las...e curiosamente estavam completamente enrijecidas. Pássara dura. Só não confirmava a morte por que ainda lhe batia o pequeno coração. Desaprendera o movimento de voar? Ver suas asas assim tão céticas, despertaram-me a vontade de concretizar meu desejo de criança...Não hesitei: Agarrei Olívia fortemente e golpeei severas vezes sua cabeça no mármore da mesa. Pela primeira vez vi Olívia combater pela vida. Ela finalmente piava escandalosamente e bicava minhas mãos, debatia-se, lutava, queria vencer, vencer a morte, enfim! Isso velha Olívia, lute! Golpeava seu crânio mais e mais. Só parei quando vi a cabeça pendida por um fiozinho de carne. Olhei para ela e a vi como o retrato da guerra: a cabeça no desfiladeiro, forte, rebelde, relutante! Repousei na mesa o corpinho da pássara. Era ela agora a própria imagem eterna da humanidade, única, resistente e imperial. Ali, com a cabeça pendida e as descrentes asas quebradas pude contemplá-la como que diante de uma obra de arte. Olívia já não era mais uma velha sabiá morta.... ela assim sobre a mesa era minha criação, minha obra de morte e apresentava-se a mim respeitosamente, tal qual a estátua grega da Vênus: pálida, gélida, sem vida, sem cabeça e sem braços.

domingo, 27 de março de 2011

Artista atravessa corredor de vidro


A artista plástica pernambucana Juliana Notari, em performance realizada no “Festival Performance Arte Brasil” que finalizou nesse domingo, 27 no Museu de Arte Moderna, revela (e desvela) os caminhos de sua arte de forma senão curiosa, no mínimo inquietante. A travessia que fez a artista em sua performance, descalça por um corredor cheio de cacos de vidro nos levam a perguntar inevitavelmente o que moveu a artista a empreender o feito. Este, antes mesmo de sua realização, faz ecoar a princípio no leitor/espectador imagens de mutilação, dor, ou mesmo de sacrifício da carne a serem expurgadas e apresentadas pela artista. Imagens essas um tanto impactantes mas que vão poeticamente desabrochando nas lembranças de um medo, susto ou desejos muito próprios das de nossa infância, pois afinal: quem nunca teve desejo de tocar o fogo, de respirar debaixo d` água, de saltar da árvore e voar, de atravessar paredes, e por que não, atravessar um caminho de estilhaços de vidro?  Se visitarmos nossas recordações podemos facilmente lembrar que diante destes impossíveis - ainda que tivéssemos em nosso coração de criança a vontade de realizar tais feitos - mesmo à luz de nossas ousadias, sentíamos próximas as trevas do perigo; e era assim então que racionalmente afastávamos um pouco mais a mão do brilho do fogo; saíamos ofegantes do escuro do rio; segurávamos no galho forte da árvore; e afastávamos com pés vagarosos, o vidro do chão...
 Retomando à artista, percebemos que ela faz em sua performance esse mesmo movimento descrito e inscrito em nossa salutar memória de criança. Operando de forma contrária às primeiras imagens suscitadas (mutilação, sacrifício, sangue e dores), Juliana durante sua travessia não quer se ferir: quer mesmo diminuir as possibilidades do perigo imanente e faz isso afastando, com pés lânguidos e vagarosos, os cacos de vidro do chão. Ela, na direção inversa do óbvio, realiza sua performance de forma lúdica; ludicidade relevante se levarmos em conta a situação das artes hoje que como disse o pintor Francis Bacon foram transformadas “totalmente num jogo que o homem usa para se distrair” - além de devoradas pelo mass media - o que coloca os artistas em situações de constante perigo. Nesse sentido é preciso que em cada travessia pelos caminhos da arte o artista-jogador tenha ousadia, atenção, intenção e perspicácia para que neste jogo antropófago de vai-e-vem e devorações ele atravesse precipícios, pedras e estilhaços de vidro, mas cuidando para não cair, ferir-se ou mutilar-se... Juliana Notari, em sua performance mostra saber que está em jogo com sua arte. E ela aprofunda-se nele não só despertando sensações, mas colocando seu próprio corpo em xeque.




sexta-feira, 11 de março de 2011

Tsunami no Japão: A vingança de Susanowo


Hoje tive o prazer de conhecer aqui no Rio de Janeiro Akira Ogawa, poeta e jornalista paulista. Ainda que não tenha vivido no Japão, Ogawa cresceu ouvindo lendas e mitos de seu país que eram contados por seus avós paternos. Ambos em alta velocidade, e de passagem pela cidade-maravilha, trocamos e-mails e conversamos sobre poesia e a tragédia do Japão em bate-papo virtual. Sugeri a Ogawa que publicássemos trechos da nossa conversa no blog. Ogawa consentiu. Revisamos a conversa e publicamos aqui no blog incinerário nosso bate-papo-trágico-japonô-poético.

OGAWA: A catástrofe é uma forma inconteste da vida de relembrar o homem da sua animalidade. Não acho que apenas os cidadãos japoneses estão sendo engolidos. É a humanidade. Estamos sendo engolidos pela boca da morte. Os japoneses hoje, os brasileiros amanhã, os indianos, os norte-americanos depois... Todos pouco a pouco vão ser engolidos. E não acho que os Tsunamis são apenas abalos de placas de rocha que se entrechocam no Oceano como diz a mídia. Não mesmo...

LC: Me espanta a ciência, a mídia explicarem as tragédias desse jeitinho tacanho. Ninguém visita a fundo a causa delas. Eles explicam tudo. São as “placas de rocha” que quando se movem produzem “grande quantia de energia” dando então “origem ao tsunami”... explicação frívola, metálica. Mas o que você acha realmente desses tsunamis?

OGAWA: Acho que são os deuses tremendo dentro do Oceano. Pra mim é o deus Susanowo, rei dos oceanos que veio reivindicar a terra para si outra vez. Amaterasu e Susanowo voltaram a brigar...Briga mitológica, guerra antiga, mas que acredito que voltaram a travar. Talvez porque Amaterasu não esteja conseguindo reinar bem a terra. O homem industrial e agora o pós-industrial já tomou conta de tudo. A situação se agrava porque o japonês esqueceu de seus ancestrais...

LC:  Ogawa, sua querida amiga virtual tem sido ocidentalizada demais. Não conheço essa história aí não...”Porque você não verá....meu lado ocidental!” Já te falei do meu novo livro?: “Eu, Estúpida”.

OGAWA: Fica tranqüila. Sou ociriental.

LC: Ociriental?? Gostei.

OGAWA: É. Espada-chin híbrido. Espada-chin brasileiro sem espada e de canivete e celular positrônico!....Tzin! Então...A grosso modus...A briga deles se parece como o Apocalipse bíblico, mas sem apocalipse...briguinha à toa, coisa de deuses. Claro que o que é “à toa” para os deuses não é o mesmo que para nós mortais.

LC: Sei. Algo do tipo, Tsunami: Pra nós grande catástrofe, pros deuses, limpezinha no quintal. Apocalipse mas sem apocalipse...Como assim?

OGAWA: Limpezinha no quintal? Um pouco hilário, não? rs. Mas enfim. Deixa eu tentar explicar. É que Amaterasu é deus dos Céus e da Terra, assim como o Deus cristão. E Susanowo é deus dos Oceanos, Deus das profundezas, da escuridão. Uma região abaixo da terra, analogicamente o inferno cristão.

LC: (Assim na terra como nos céus)

OGAWA: Amém.

LC:  Hum...Tô entendendo...(estúpida que se ilumina)...e aí?...

OGAWA: Aí que Susanowo quer roubar o céu e a terra, domínios de Amaterasu. Como ele domina os oceanos, ele resolve enfrentar Amaterasu com o poder das águas. Devasta a terra com a força do oceano, que emerge com violência. O oceano começa a engolir toda a terra. Arrozais são completamente destruídos, afundam no rio milhares de animais, casas, árvores enormes...a sujeira que ele vai fazendo já que devora e destrói tudo, também suja o palácio da deusa solar. - Puro caos - .

LC: Puro Japão. Antes cavalos, hoje carros...

OGAWA: Isso aí. Então a deusa do sol, ultrajada e ferrada cai fora, se esconde numa gruta pra chorar sozinha toda essa devastação. E aí a catástrofe é maior ainda. Além de perder tudo para o Tsunami de Susanowo, o Sol desaparece.

LC: Sei...

OGAWA: E depois de muito procurar, encontram a deusa e conseguem tirar ela do esconderijo e o Sol volta a raiar. Susanowo então é capturado e punido para que não haja mais desequilíbrio entre os três reinos: o céu a terra e o mar... É mais ou menos isso aí.

LC: Hum...mas então você acha que Susanowo voltou...

OGAWA: Voltou para aniquilar. Talvez Amaterasu, talvez os japoneses, talvez todos  nós. Nenhuma força natural, cósmica, divina, mesmo inférnica, suporta tanto ultraje por tanto tempo. Vomitamos durante muitas gerações lixo atômico na garganta de Susanowo. Acho que agora ele quer regurgitar o mijo, as fezes, os detritos, a sujeira industrial que fizeram seus cavalos marinhos desintegrarem.

LC: Talvez seja agora Susanowo que queira estabelecer o equilíbrio entre os três mundos... Chegou a nossa vez de sermos punidos...Três mundos. Lei número 3. Ação-Reação do Deus. Nada mais natural.

OGAWA: Como disse. Primeiros os japoneses. Depois os brasileiros. Quem sabe os tailandeses, ou os antárticos logo depois. Mas uma coisa é certa. Se Susanowo tiver mesmo voltado, tenha certeza de que ninguém vai resistir à sua fúria. Lixo radioativo vai contaminar muito mais lugares. E muitas bolas de fogo ainda vão explodir no céu. Tóquio não vai resitir. Nem Obama. Nem Kadhafi. Nem eu. Nem você. Bye, planeta.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Quem nunca deveu o Sodré?

   Que atire a primeira pedra quem nunca recebeu uma ligação do poeta da transmutação cobrando, em plena tarde de sol, a dívida de um livro. Sodré, que dispensava abertamente as teclas do computador e as trocava por pena, escrevia à tinta, no caderno de papel amarelado em seu tão conhecido cantinho sagrado do Instituto de Linguagens. Quando não poetava, tocava em seu surrado violão de cordas frouxas como se ensaiasse uma magnífica orquestra árabe do Saara. Lembro-me que um dia enquanto andávamos de tarde por aquela região da Universidade - e ao seu lado tal palavra ganhava ainda mais força - contemplávamos Pluriversos como quem belisca abelhas. Nessa tarde Sodré disse-me extasiado que certa vez, com um certo amigo em um incerto lugar - mesa de bar?, que ele, ele, ele, mesminho da silva, havia composto uma música, uma grande música para ser tocada em Orquestra Sinfônica. E falou isso com aquele seu brilhinho típico nos olhos apertados, o sorriso contido e engraçado, a cara de desenho animado. E de repente com sua voz de taquara esguia e rachada, começou a cantar pra mim aquela que seria a única frase que envolveria e guiaria todos os instrumentos da magnífica Orquestra: “Há muitos orquidáááários...há muitos orquidáááários...há muitos or-qui-dáááários! Pam, Pam, Pam”. E falou extasiado, a cara de desenho animado e os olhos brilhando: “Imagine os violinos, Luana! Imagine os violinos! Pam, Pam, Pam!”. É claro que ele estava falando muito sério. E é claro que eu morri de rir.
   Mas cá entre nós, fiadores e passeantes do “Carrossel do IL”, como não morrer de rir com Sodré? Ler seus poemas e não soltar um enigmático risinho de Monalisa é feito impossível. E quanto à narrativa de seus contos? Dia desses, de noitinha, naquele seu lugarzinho sagrado, ele me disse: “estou escrevendo um conto sobre um mènage...é um gato que tem ciúmes doentio de sua dona com o namorado e do namorado que também tem ciúmes doentio dela com o gato”.... tirando o trágico fim de que o gato assassinaria o namorado de sua dona a unhadas na jugular, o conto era de uma comicidade equiparável ao estranho som da risada de Sodré.
   Nosso escritor transmutante ria de coisas escatológicas, eróticas, aneurítmicas, sérias e absurdas. Naquele seu cantinho sagrado, estava sempre lendo ou escrevendo em transe, ouvindo seu radinhozinho de pilha sintonizado em uma música leve e agradável. Não raro o poeta, quando cutucado em seu Oásis literário, respondia com um agradável e simples: “HÃN?!” E quando cumprimentado com um comum “Boa noite Sodré!”, ele, como se ressintonizasse vagarosamente com a terra devolvia: “AH, OI, SIM, É, TUDO BOM”. E nós, claro, ríamos de seu despropósito com as saudações rotineiras.          Porque Sodré era um poeta que estava mais acostumado a saudar flores, palavras e nuvens do que gente; reparava na aranha pendurada na teia debaixo da sua bancada, pois ela seguramente dançava ao som das cordas frouxas de seu violão das arábias.
   Nosso livreiro, que não era de Cabul nem do Saara, mas viveu calorosamente sob os 40 graus de nossa Cuiabá, não tinha plano de saúde, casa própria, nem celular - mas fazia do orelhão da Universidade, o seu telefone fixo. E era de lá que ligava para os seus fiadores. Num simples “triiiimmm”, avisava o funcionário, estudante, professor, moradores de rua e os gatos (assassinos ou não) da nossa universidade, que já tinha passado o dia do pagamento agendado do livro adquirido. Era dia de pagar. De pagar o Sodré. Tarde de sol, de sábado, segunda ou domingo... era dia de pagar o Sodrezin...dívida esta que por sinal, não paguei.
Mas confesso que hoje, nessa tarde de sol, mesmo a alguns quilômetros de Cuiabá, espero extasiada pela ligação de Sodré. Não porque acredite na ressurreição do Poeta. Mas porque acredito piamente que Sodré, com sua cadernetinha de palavras e  e números nas mãos, enquanto assobia poemas e conta orquidários, está andando por aí meio desligado, buscando algum orelhão pra fazer de telefone fixo no além...

Luana Costa
Ex-estudante de Letras da UFMT e passeante do Carrossel do IL.