domingo, 2 de janeiro de 2011

"C" de casa e cadeira de escola

Escrever para mim sempre foi um exercício de resistência à dor e acima de tudo, paciência. Não pelo motivo que promulgavam alguns de meus antigos professores de que: “escrever é um labor” de uma “dura pedra” que “resfolega o pensamento com a palavra numa contrição”, sempre à procura do “verso perfeito”. Não estou aqui para falar deste sacrifício criativo per si, mas do sacrifício carnálico em si. A começar pelo caderno - caro carnis de minha vida. Os espiralados, verdadeiramente. Durante as exaustivas cópias conteudísticas no quadro negro sofria com as espirais comprimindo a carne do meu antebraço esquerdo de modo que não havia um dia sem que eu saísse da sala de aula sem marcas sulcadas na pele. Concomitantemente às espirais  contraí dores musculares mais obtusas com o tempo e acostumei-me a elas como quem se deita em uma cama de pregos e dorme sonos profundos.  O duplo do meu sofrimento foi sentido com ainda mais força graças a elas, tão belas de tão envernizadas cadeiras! Ah, as cadeiras! Quanta destreza sofri com aquelas direitas! Sem cadeiras especiais para hereges, sentava-me nas destras, naturalmente. As minhas dores musculares sentidas há tanto tempo, já haviam tornado-se normais para mim. E em minha cabeça elas eram comuns à todos os meus. Convivi de maneira muito natural com o meu corpo tendo de curvar-se quebrantavelmente rumo ao lado direito da envernizada cadeira de madeira. Talvez por isso tenha desenvolvido a minha letra C de casa na lombar, diagnosticado por uma médica de hálito agradável. Minha C fora adquirida graças ao esforço contrário dos meus ossos rumo ao lado direito. Mas as minhas dores passariam por uma nova etapa. Envolta em cópias fatigantes do quadro negro, sulcos no antebraço e “Ces” na lombar, entrei na Universidade. Feliz como uma dócil vaca que vai para o abate, ali as minhas náuseas foram mais refinadas: Na sala de aula, compadecidos da minha situação, meus novos mestres decidiram sarar-me dessa tortura: primeiro rasparam-me o crânio; depois molharam-me a cabeça esquálida com esponjas, resfolegaram-me o pensamento e introduziram em minha carne eletrodos em toda a parte esquerda do corpo. Submetida a fortes tensões elétricas de 20000 volts, meus doutos e mestres curaram-me finalmente dessa bruxaria. Depois de retos quatro anos eu, herege, torpe, corcunda e vencida, desisti de experimentar paciências e  resolvi não mais resistir à dor: amputei finalmente a canhota.

5 comentários:

  1. Hola poet...its a pleasure talk with you. Your poems are beautiful like a fire.
    Hasta luego.
    Adelchi

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  2. Olá querida!
    Adorei seu post! Você é muito criativa.
    Manda um poema seu pra postar no meu blog!
    Meu email é marciagrega1@gmail.com

    Bjussss

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  3. Amiiga....
    Aos 'canhotos', um desabafo..
    Aos destros, esquálidas contemplações..
    Aos ambidestros, o termo partido e sem volta..

    Luna mía..instigantemente geradora de mundos melhores és..Êxtasis....

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Faby, cariño!
    que bom receber um comentário teu.
    por entre partidas, contemplações e desabafos, deixo pra você os meus a-braços destros, já que um deles, como pode perceber, foi removido pelo autor...
    bjus!...

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