sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um sonho de véspera - Conto de Natal

Era noite. Manoela olhou da sacada do quarto com os olhos que lhe eram próprios, a rua. Estavam todos lá: o poste, o hidrante, o cachorro e a lua. Manoela, que via tudo no andar de seu apartamento estava enfiada num vestido preto que mais parecia capa de chuva. Ainda que ele a apertasse demais para um dia de celebração e dificultasse-a para respirar, ela observava a rua atentamente. Porque no fundo ela queria ser pássaro. Ou noite, quem sabe.
Às vezes ela voltava para a sala a chamado de um grito ou riso para escutar uma piada do tio Caio, mas o uivo do cachorro lá fora alimentava mais seus ouvidos que a palhaçada de família. Devia ser porque ela tinha o sonho de ser palhaça também só que de circo: cara-pintada, nariz vermelho, sapatos achatados e boca de sapo. De quando em quando, Manoela ia até a sala e se via de soslaio na bola azul pendurada na árvore, uma imagem rara de si mesma: côncava, pequenininha, colorida.
Mas volta e meia Manoela voltava para a sacada de seu quarto, pois de lá a imagem de si mesma era outra, quase um reflexo perfeito do eu. E enquanto o vestido enforcava o seu tórax, ela via o poste e a lua amarela. Mirando o céu, uma chuva bem ralinha começou a frisar a noite; a chuva caía formosamente sobre a ponta da lua e coroava-a, dando-lhe cabelos d´água transparentes.  Depois caíam vagarosas nos pêlos do cãozinho que uivava, e só depois de tocá-lo iam parar silenciosas no chão. A lua, o cachorro, o poste e a rua pareciam uma coisa só, pertenciam à moldura de sua janela. Tio Caio e toda a família chamou Manoela para ver a chuva que caía da sala, mas ela sabia que da sua janela era diferente...
Foi quando atrás da mureta que separava seu bairro do centro da cidade, surgiu uma estranha imagem: Vestia um macacão enorme e colorido, grandes sapatos, boca vermelha e os olhos pintados como a lua crescente. Enquanto a figura andava, ouvia-se o barulho dos guizos balançando na ponta do chapéu. Manoela também tilintou o guizo dos seus olhos. A madrugada abraçou toda aquela cor. Depois, a lua beijou a moça da janela.
Porque era véspera.

Luana Costa.
Texto publicado originalmente no Jornal "Folha do Estado", 24 e 25 de dezembro de 2010.

4 comentários:

  1. Para Aninha, a minha linda sobrinha-pássaro...

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  2. Nossa realmente perfeitoo. Vou confessar me vi no ambiente em que se passa o conto e percebi todos os detalhes. LÚ, obrigadaa por esse presente e logo no natal! Você está de Parabéeens!! Beeijos

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  3. Olá, sou mãe da Milena, ela está aqui comigo e me mostrou seu blog. Também sou blogueira e estou te seguindo.
    Um abraço,
    Marineide

    http://marciagrega.blogspot.com
    http://gregapoemas.blogspot.com

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