domingo, 27 de março de 2011

Artista atravessa corredor de vidro


A artista plástica pernambucana Juliana Notari, em performance realizada no “Festival Performance Arte Brasil” que finalizou nesse domingo, 27 no Museu de Arte Moderna, revela (e desvela) os caminhos de sua arte de forma senão curiosa, no mínimo inquietante. A travessia que fez a artista em sua performance, descalça por um corredor cheio de cacos de vidro nos levam a perguntar inevitavelmente o que moveu a artista a empreender o feito. Este, antes mesmo de sua realização, faz ecoar a princípio no leitor/espectador imagens de mutilação, dor, ou mesmo de sacrifício da carne a serem expurgadas e apresentadas pela artista. Imagens essas um tanto impactantes mas que vão poeticamente desabrochando nas lembranças de um medo, susto ou desejos muito próprios das de nossa infância, pois afinal: quem nunca teve desejo de tocar o fogo, de respirar debaixo d` água, de saltar da árvore e voar, de atravessar paredes, e por que não, atravessar um caminho de estilhaços de vidro?  Se visitarmos nossas recordações podemos facilmente lembrar que diante destes impossíveis - ainda que tivéssemos em nosso coração de criança a vontade de realizar tais feitos - mesmo à luz de nossas ousadias, sentíamos próximas as trevas do perigo; e era assim então que racionalmente afastávamos um pouco mais a mão do brilho do fogo; saíamos ofegantes do escuro do rio; segurávamos no galho forte da árvore; e afastávamos com pés vagarosos, o vidro do chão...
 Retomando à artista, percebemos que ela faz em sua performance esse mesmo movimento descrito e inscrito em nossa salutar memória de criança. Operando de forma contrária às primeiras imagens suscitadas (mutilação, sacrifício, sangue e dores), Juliana durante sua travessia não quer se ferir: quer mesmo diminuir as possibilidades do perigo imanente e faz isso afastando, com pés lânguidos e vagarosos, os cacos de vidro do chão. Ela, na direção inversa do óbvio, realiza sua performance de forma lúdica; ludicidade relevante se levarmos em conta a situação das artes hoje que como disse o pintor Francis Bacon foram transformadas “totalmente num jogo que o homem usa para se distrair” - além de devoradas pelo mass media - o que coloca os artistas em situações de constante perigo. Nesse sentido é preciso que em cada travessia pelos caminhos da arte o artista-jogador tenha ousadia, atenção, intenção e perspicácia para que neste jogo antropófago de vai-e-vem e devorações ele atravesse precipícios, pedras e estilhaços de vidro, mas cuidando para não cair, ferir-se ou mutilar-se... Juliana Notari, em sua performance mostra saber que está em jogo com sua arte. E ela aprofunda-se nele não só despertando sensações, mas colocando seu próprio corpo em xeque.




2 comentários:

  1. Cara Luana. Belíssimo texto sobre a performance da artista. Você mostrou o lado sensível e humano de algo aparentemente doloroso e mutilante...bem já lhe falei isso, mas acredito que elogios são sempre bem-vindos: sua escrita é nuvem e ternura mesmo quando sangue e carne... pesquisei sobre Juliana, realmente ela é formidável. (também gostei do verão em Tóquio aí embaixo.. ciber arco-íris de um futuro-mais-que-presente) Grande abraço!

    ResponderExcluir
  2. É instigante a leitura que você faz sobre a mutiliação e o desafio ao corpo evocar imagens da infância. Tempo esse de coragem, que é controlada e aniquilada pelas preucações, enfim,necessárias dos pais. Atravessar um corredor de vidro é um desafio ao corpo, a nossa capacidade de sentir dor, mas é também, uma pergunta em carne viva: Qual o limite da arte? O que é arte afinal? Performances a um só tempo corajosas e lúdicas como essa nos faz refletir sobre os desafios da contemporaneidade: Quando tudo se torna banal, repetitivo, "desinspirado", será o choque uma forma de nos chamar à luz de nossa criticidade? Abraços. E beijos também.

    ResponderExcluir